quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Carta aberta aos implicados no fechamento do Cine Topázio

Caros amigos,

o propósito desta carta é, antes de tudo, uma ação conjunta pela manutenção do Cine Topázio. Pedimos a sua atenção, leitor. As duas salas de cinema localizadas no Parque Prado são as últimas salas de cinema que se dedicam a exibir filmes fora do circuito comercial na cidade de Campinas. São nossa única alternativa atual de ir ao cinema não como consumidores, que escolhem o produto que lhes agrada e vão sabendo o que esperar, mas como espectadores que não sabem o que lhes espera, e que são surpreendidos pelo novo, pelo belo. Que sentem o cinema como a arte que é. Dirigimo-nos, pois, aos três principais implicados no fechamento do Topázio.

Em primeiro lugar, ao(s) dono(s) do cinema: dialogue(m) conosco. Sabemos que a viabilidade comercial de um cinema alternativo em Campinas parece complicada. No entanto, há um público, e cremos que, com o estímulo e a condução certas, a existência da sala pode se viabilizar em termos comerciais. Talvez o cinema não seja a alternativa mais lucrativa no complexo do shopping center localizado no Parque Prado.  Mas pode ser um atrativo a um público diferente, um diferencial e uma grande ação de divulgação, caso a campanha aqui proposta dê certo. Pedimos, pois, a paciência e o diálogo dos senhores. Pedimos o adiamento de seus planos por seis meses.

Em segundo lugar, ao Secretário de Cultura da cidade de Campinas, o senhor Ney Carrasco: sabemos que esse assunto, embora esteja além da sua alçada, também o implica. Vemos sua preocupação com a oferta de cultura na cidade, e gostaríamos de pedir sua intervenção, com sua experiência no meio cultural, sua posição no Município e sua sensibilidade. Gostaríamos que o senhor pudesse se dispor a fazer parte desse diálogo, cujo objetivo é construir um plano de viabilização da existência do Cine Topázio. A cidade, assim, não perderia seu único cinema comercial alternativo ao circuito hollywoodiano.

Por fim, dirigimo-nos ao público da cidade e da região metropolitana de Campinas, àqueles que, de alguma maneira, valorizam o cinema. Essa é a missão mais difícil dessa carta, mas a crença na mobilização e na participação da sociedade civil nos move. Pedimos a cada um daqueles que não deseja o fechamento do cinema e que leu essa carta e a compartilhou que se comprometa a, entre os meses de novembro e dezembro, ir pelo menos três vezes ao Cine Topázio no mês de novembro. Escolha seus filmes ou não os escolha: vá e seja surpreendido. Converse com seus amigos sobre eles. Vá ao cinema e publique, nas redes sociais, o que viu de interessante no filme. Convide seus amigos, sua família. Professores, comentem com seus alunos, organizem excursões, formais ou informais, para levá-los ao cinema e conhecer o patrimônio cultural da cidade. Vocês são agentes da educação. Pais: levem seus filhos ao cinema, dialoguem sobre os temas dos filmes com eles. Encontrem algumas horas em suas semanas, em três dos trinta dias de novembro. É isso o que pedimos de vocês. Que mostrem ao(s) dono(s) e ao Secretário de Cultura que é possível, com um plano de ação conjunta, manter o Cine Topázio funcionando.


Que essa carta circule, que seja lida. Que a ação se desenvolva. Que seja sentida a mudança no Cine Topázio. Que não tratemos o assunto com nostalgia, tristeza e derrota. Que mostremos que, agindo, podemos transformar a cidade. Utilizemos a força das redes sociais, dos blogs, para divulgá-la, mas também utilizemos a força que vai além da internet, a força da ação. Esta carta é uma proposta viva. Que se considerem signatários dela todos aqueles que a compartilharem. Que todos aqueles que a compartilharem se comprometam à ação que ela propõe. Que ela chegue a todos a quem é destinada.

sábado, 21 de junho de 2014

A universidade pública e a escola pública


No clima de copa, e em uma copa tão festiva por uma zebra no grupo da morte, é fácil e gostoso se identificar com os pequenos. Grandes equipes como a Espanha, a Inglaterra, a Itália e o Uruguai chegam a um torneio desse com responsabilidades enormes, e acabam sendo surpreendidos por equipes de menor porte. Uma das grandes vantagens dessas equipes é poder jogar à vontade, uma vez que suas torcidas não as vaiarão nem as condenarão se perderem. É a Itália, é a Espanha, lutamos muito... Incorporo, então, tal clima, sabendo que minha opinião diante da de especialistas e professores da Unicamp é um nada, um sopro.
Francisco Foot-Hardman e Alcir Pécora, professores do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, onde estudei e estudo (embora meu contato com ambos não tenha ocorrido em salas de aula, apenas em corredores e em parcas ocasiões), assinam um texto publicado no Estadão há algum tempo (link aqui http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/171852-100-escola-publica.shtml ) no qual defendem a "ocupação de todas as vagas em universidades públicas por quem as merece de direito e de fato: estudantes de escolas públicas." O texto ressalta uma série de problemas importantes concernentes à educação básica estatal: a desvalorização dos professores, o aspecto restritivo e discriminatório do exame vestibular, os parcos investimentos, a mudança radical de perfil que existe entre educação básica pública e educação superior pública. Em seus diagnósticos, o texto é bastante acertado.
Gostaria, no entanto, de colocar em cheque a solução apresentada. O encaminhamento do texto de Foot e Pécora me parece muito mais soldado por meio de palavras de ordem que de argumentos em si. Hipocrisia, demagogia e democracia  (conceitos quase sempre complicados, voláteis e reversíveis ao longo das malhas textuais) saltam logo no início aos olhos do leitor. A solução apresentada para os problemas tão bem diagnosticados pelos dos professores universitários, a ocupação das vagas na universidade pública exclusivamente por alunos que cursaram o ensino básico em escolas públicas, embora pareça extremamente precisa num primeiro olhar, é vaga.
Em primeiro lugar, perguntemo-nos: há proporcionalidade? O número de alunos que cursam o ensino básico em escolas públicas no Brasil é equivalente ao número de vagas nas universidades públicas? É evidente que não. Apenas na região de campinas o número de alunos no terceiro ano das escolas públicas supera o número de vagas disponíveis em universidades públicas. E o daqueles egressos do terceiro ano que, tendo cursado o colegial, não quiseram ou não puderam passar diretamente ao ensino superior, mas que com a nova política vislumbrariam uma chance? E os oriundos daquelas regiões onde a distância mínima entre o centro de uma pequena cidade e uma universidade é maior que 200 km? Como no velho "slogan" dos efeitos do neoliberalismo no Brasil na década de 90, "não há vagas."
A proposição, então, precisaria encontrar uma forma de, no cerne do sistema plural proposto, inserir um mecanismo discriminatório? O desempenho escolar dos alunos nas escolas poderia ser uma maneira de decidir quais deles teriam, no mínimo, preferência. Não há, no entanto, uma realidade escolar no ensino público brasileiro que dê base para tanto. Se os professores, como bem diagnosticaram Foot e Pécora, são mal pagos, se as escolas têm uma infraestrutura parca, e se há tanta discrepância entre diferentes escolas, como levar em conta as avaliações como algo que confere qualquer tipo de valor utilizável como critério? Talvez, a solução fosse propor um tipo de avaliação que buscasse, menos que o conteúdo, analisar algumas competências, e que se estendesse nacionalmente, a alunos de todas as escolas públicas... E chamá-la, quem sabe, de Exame Nacional do Ensino Médio. Pois é.
Há ainda um terceiro problema: como definir em quais universidades estudariam cada estudante? Suponhamos que o curso de Estudos Literários, da Unicamp, fosse desejado por 120 estudantes oriundos de escolas públicas no Brasil inteiro no ano de 2015. Atualmente, o curso oferece 20 vagas. Quem teria preferência? Os moradores de Campinas? Os moradores de outras regiões? A preferência, talvez, pudesse ser estabelecida a partir de critérios socioeconômicos: aqueles que têm renda mais baixa teriam preferência. Mas e se ainda dentro desse critério houver empate? E o custo de vida do local de origem, será também levado em consideração? E no caso de falsificação dos questionários socioeconômicos, seria possível uma investigação? Haveria estrutura, funcionários, centros para isso?

A solução proposta pelos professores da Unicamp não é tão simples e direta quanto parece. A razão disso me parece bastante clara: políticas públicas de inclusão não são atos instantâneos, frutos de momento, mas longos, combatidos e achincalhados processos de maturação. Quase sempre, geram uma reação negativa calcada no ódio, e precisam se equilibrar na corda bamba até que seus primeiros resultados comecem a aparecer na forma de estatística - e quando os resultados aparecem, continuam a ser criticadas como antes, se não mais. Sempre ameaçados pela reação dos que desejam se manter no topo, os processos de inclusão social não podem correr o risco de ficar ao bel prazer de um mero ato, de uma canetada. Precisam ser algo gradual, crescente e definitivo, cujo resultado dê impulso a um ciclo. Palavras de ordem não são inclusivas ou efetivamente democráticas; são, no geral, hipócritas e demagógicas.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Jesus e Genésio

A internet anda confusa. Pudera: o fluxo cada vez mais frenético de informações cada vez mais superficiais, inverificáveis e repassadas aleatoriamente não poderia dar em outra coisa. "Compartilhei por que achei bonitinha a roupa que ela está usando na entrevista, embora ela fale um monte de besteira"; "Achei o trocadilho divertido". Algum dos meus amigos (perdão, Vinícius, acho que foi você ou o Alex, mas não tenho certeza) disse, nesse fim de semana, que quando alguém recorre à liberdade de expressão para justificar a validade do que disse, é por que falta qualquer outro argumento que valide o conteúdo ali expresso. Vaidade das vaidades: alguém, em algum momento, teve a brilhante ideia de louvar aqueles que "falam tudo o que pensam", como se pensar antes de falar ou se resguardar a ouvir fosse algum crime, ou se como toda opinião fosse válida, apenas por ser opinião. Fico com uma das frases de vovó: nascemos com dois ouvidos e uma boca, então temos a obrigação de ouvir mais do que falar. Liberdade de expressão, enquanto assunto público, é essencial; liberdade de expressão enquanto justificativa privada por um comentário infeliz, essa é horrorosa. Quanto mais palavras e informações circulam, menos claras as mensagens ficam. Movimentadas e turvas, as águas se tornam um material quase que opaco, de visibilidade limitada. Acalmadas e serenas, são lúcidas.

Tentemos, pois, acalmar um pouquinho as águas. Para um moleque (peço perdão ao alunos que lerem esse texto, pela repetição) que decide deixar a casa, a família, e jogar futebol, a decisão não é nada, nada fácil. Encarar tal responsabilidade, com medo constante de uma lesão que possa, em uma fase determinante, encerrar um sonho, é coisa para adulto. Parte desses adultos, com dezesseis, dezessete anos, é convidado para se mudar para algum país da Europa, onde deverá ser recebido por uma grande e fanática torcida, por companheiros de clube que admirará, e onde, ainda que no início não o sinta, se adaptará com facilidade. São as portas de um sonho se abrindo, tão importantes como a primeira iniciação científica, o cargo de importância na empresa júnior, o primeiro contrato fechado ou o favor (merecido) de um Professor Doutor ou Diretor Executivo. Sonho que pode adquirir contornos de pesadelo.

A torcida pode não ser tão calorosa; a língua pode parecer hostil, e as placas, incompreensíveis. Mas no momento em que a língua se torna um pouco mais clara, as torcidas (a sua e a adversária) é que se tornam hostis; sua atitude, incompreensível. Há também o recurso às linguagens universais: a genialidade e a imbecilidade, se têm algo em comum, é o fato de quase sempre conseguirem atravessar barreiras linguísticas como se essas simplesmente não existissem. E dentre as imbecilidades (ou devo dizer, bestialidades), talvez o racismo seja uma das mais violentas, incompreensíveis e absurdas. (Outras: o machismo, a intolerância religiosa, a homofobia.) O racismo, para tais garotos, ou, na linguagem da bola, para os moleques, pode se tornar uma barreira. Desprotegidos em muitos aspectos, num país estrangeiro, longe de amigos e de parte da família, o poder intimidador de atos de racismo pode ser o determinante para a desestabilização. Torcidas fanáticas tendem a atrair ou abrigar, por vezes, torcedores agressivos que, em acessos de irracionalidade lamentavelmente comuns, protagonizam violências ou perseguições a atletas. Um sonho que exige muito investimento (de dinheiro, de tempo, de vontade) pode, assim, vir a ser interrompido por conta de uma estupidez sem tamanho: o racismo. E para esses moleques, isso significa dar cinco passos para trás, desistir da faculdade no fim, abandonar a empresa antes daquela promoção. Significa voltar à estaca zero. E o pior: não por que ele tenha cometido uma falha, mas porque o mundo parece imbecil demais, mas tão imbecil, a ponto de oferecer sessões de humilhação gratuitas. Um padeiro que se recuse a atender alguém por seu sotaque; um transeunte que se recuse, pela cor da pele de outro, a parar para ouvi-lo; uma banana atirada no campo.

Nos últimos dias, chegou ao status de viral a atitude do jogador brasileiro Daniel Alves, do Barcelona (cuja torcida já havia recebido jogadores com ofensas racistas há alguns dias - veja aqui http://esportes.terra.com.br/futebol/internacional/espanha/campeonato-espanhol/retorno-do-barca-tem-racismo-a-neymar-e-time-sem-vergonha,0bfe16c8afa55410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html ), de pegar uma banana que havia sido atirada em sua direção e, em pouco menos de seis segundos, descascá-la, comê-la e dar prosseguimento ao jogo. A atitude não foi radical como a de Kevin Prince Boateng, que abandonou uma partida, ou a de Yayá Touré, que falou em um boicote de jogadores negros à Copa do Mundo de 2018,  na Rússia. E Daniel Alves não é um craque.... 

(para os alunos de literatura, esse aqui é um exemplo de digressão!) 

Mas antes de prosseguir, quero falar sobre o que é um craque... Um craque é alguém que, vestindo uma certa camisa, seja ela de seleção ou de clube, consegue, num espaço limitado, com tempo limitado e num instante exato, realizar uma jogada que se grava, para sempre, na memória do torcedor. Aquele momento deixa de pertencer ao homem que o protagonizou, e passa a pertencer a uma torcida, a cada torcedor. In our minds... Forever, diz o personagem torcedor do Manchester United no filme de Ken Loach com Eric Cantona. Algo semelhante ao que faz um poeta com um verso, um romancista com uma cena ou frase, um diretor com uma cena de um filme. In our minds forever, como algo muito maior que simplesmente aquele momento. Uma prova de que a beleza existe, de que a humanidade é capaz de produzi-la, de alcançá-la, e de unir desconhecidos, independente de cor de pele, religião, país de origem, etnia, em uma coisa só. ( https://www.youtube.com/watch?v=UaRi-79yRw4 ) Um grito, um suspiro, uma impossibilidade de falar, um choro reprimido. Isso é um craque: e esse momento é o que temos contra a feiúra do mundo, contra os inúmeros momentos em que a vontade é de parar, de desistir. De largar a faculdade no quinto ano, de desistir do emprego antes da promoção, de dar cinco passos para trás...

... e foi aí que Daniel Alves se tornou um craque. Em seis segundos, em torno da bandeirinha de escanteio, ele transformou a banana que lhe foi atirada, ofensa racista e imbecil, em simples fruta. Em algo que, para além de si, se tornou, ali, naquele momento, insignificante, incapaz de pará-lo. Incapaz de desestabilizá-lo, de fazê-lo desistir. Daniel reduziu o racismo, naquele momento, à insignificância a que deveria ter sido reduzido há muito tempo: o papel de simples imbecilidade de algum indivíduo cuja visão do mundo é muito distorcida. Usado como arma, o racismo deveria ser insignificante, e Daniel o fez ser insignificante: contra o sonho de jogar em um grande clube, contra a vontade de vencer, contra aquilo que significa ser jogador de futebol para alguém que quer ser jogador de futebol, a ofensa não significou absolutamente nada. É incapaz de pará-lo, de desestabilizá-lo, de atingi-lo. E aquele momento, senhores, ficará nas mentes desses garotos para sempre, como está na minha, inesquecível. Um bom admirador de futebol, assim como alguém sensível para a arte, sabe quando está diante de uma obra prima. Daniel foi autor de uma obra prima, e deve ser louvado. Muito louvado. Seu ato não foi a solução do problema, como um bom verso não é a salvação do mundo. Ambos, no entanto, tornam o problema e o mundo (fundidos, os dois, no mesmo impasse) um pouco menos asfixiantes.

Até que comece a confusão na internet. Caronistas e hashtags não são o ato de Daniel, mas consequência dele. Confundi-los seria como atribuir os crimes de Charles Manson aos Beatles, cuja canção, Helter Skelter, era, segundo o serial killer, inspiração para matar. O status de viral aparece, em parte, por conta do apoio prestado pelo companheiro Neymar (vide a primeira notícia que linkei ao texto) na forma de uma foto com uma banana. Neymar é menina dos olhos da publicidade, assessorado em tudo o que faz, e discutir a natureza de seu envolvimento e em que ponto termina a solidariedade e começa a promoção é entrar em florestas densas demais para o momento. O que interessa é: Neymar é jogador de futebol, vítima de racismo, e, no contexto, a foto fazia sentido pleno. Era apoio e solidariedade. O que não faz sentido são os caronistas: os milhares de pessoas que, ao mesmo tempo em que defendem o ato de Daniel, são a favor da elitização dos estádios de futebol, e defendem, dia a dia, a segregação em cujo cerne estão a discriminação e o racismo. Globais, globalizados ou globobos, não importa; louros morenos, carecas, cabeludos, como na cantiga de corda, também não importa. O que importa é a incoerência das atitudes, e o quanto o senso de oportunidade precede a reflexão. A décima terceira selfie da semana, a maneira de promover a nova peça de teatro... Tudo isso precede a reflexão de quem está sendo excluído do esporte pelo novo padrão "fifa" dos estádios, qual o espaço de convivência democrático que reúne todas as classes sociais, credos, cores de pele. No trecho do filme de Ken Loach que postei acima, o carteiro Eric _ amigo, de repente, do craque Eric Cantona _ se queixa da falta que sente de ir aos estádios. É a pasteurização do grito de gol, ou como diz Lúcio de Castro, o processo de Eugenização do futebol brasileiro. O futebol, espelho da sociedade, poderia aqui comentar rolezinhos, rolezões ou rolexes. Mas também a discussão sobre o futebol foi ocupada pela discussão sobre a camisa, a namorada e o comportamento fora de campo do jogador e do treinador. Triste momento, do qual nos consolam quem? Eles, os craques, e seus lances mágicos, artistas da bola que mantém viva a chama da paixão pelo esporte. E pela humanidade.

Não sem tempo: o Villareal identificou o atirador de bananas e o baniu de seu estádio. Privado do espetáculo, que vá aprontar em outra freguesia, e que esteja fichado, na polícia, passível de processo e punição. Cada instituição fazendo aquilo que lhe cabe, e com plena consciência do quanto isso afeta a outra. Aí, talvez, esteja um caminho para, de fato, atacar o problema.

Obrigado, Dani Alves. Não somos todos você não; você é craque.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Dois sonetos

Frutos de um feriado dedicado a duas leituras políticas, a de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, e a de O Conceito do Político, de Carl Schmitt, me apareceram esses dois sonetinhos. São tentativas iniciais de trabalhar com a forma soneto (ou como diz Jorge Luis Borges, de treinar a mão), e também são alfinetadinhas carinhosas nos amigos que sempre me ensinam, cada vez mais, o que é a política. Digo, nas redes sociais, que não devem ser levados a sério; aqui, não preciso dizê-lo. Alguém já levou alguma coisa escrita nesse blog a sério? Porque se levou... Baby, you got it all wrong. ;)

Soneto Maquiavélico

Temente apenas à sua própria mão
E justo quando há olhares ao redor
Prudente em ter a lâmina maior
que o código de leis de seu bolsão.

Por outros nobres tido como irmão,
Por saber nomes e brasões de cor,
Defende-se de seu berço menor
E é de berços menores campeão.

Não outorgou-lhe o sangue, mas a espada
o mando do que chama hoje de lar,
lar onde a gente canta governada.

Veio a mão dum tirano decepar
E ao tê-la no castelo pendurada
Se faz temer ainda mais que amar.


Soneto Schmittiano

Não cabe a mim dizer se é belo ou feio,
De um ato, se é bondosa a natureza,
Se é lucrativa ou onerosa a empresa;
São tais distinções inútil rodeio.

Digo aos que ainda me julgam com receio,
que a guerra, para mim, não tem beleza,
não traz dinheiro ou bem, mas é coesa,
e a coesão reside no seu seio.

Se falo em definir os inimigos
Não é pensando em quem vou destruir,
E sim de modo a organizar perigos.

Política, em essência, é definir
a quem não cabem mais quaisquer castigos
a não ser o de cessar de existir.

sábado, 8 de março de 2014

Pequeno episódio sobre um sultão

Sentado em sua cama mas em trajes reais, o sultão observa o movimento de uma borboleta azul. Atento aos seus movimentos, ele pensa em palavras para defini-lo: desenho, acrobacia, dança.
Seu grão-vizir, apavorado, o interrompe em seu ato de contemplação, abrindo a porta do quarto:
_Majestade, todos no palácio estão apavorados com a sua ausência.
O sultão não responde. Ainda não se acostumou às intromissões do velho vizir.
_Majestade, devo alertá-lo sobre a tradição que vosso avô e vosso pai cumpriram, e que deverá ser cumprida por vossa Majestade...
_... de que em todo aniversário o sultão deve comparecer diante de seu povo e celebrar uma festa, oferecendo ao povo uma demonstração de seu poder ou de sua sabedoria. Sim, obrigado. Agora, tenha a bondade de se retirar.
Já velho e cansado, o vizir se questionava sobre a real possibilidade de transformar aquele rapaz em um sultão à altura do pai. Parecia, nos últimos oito meses, ter apenas aprendido a veemência do comando.
Quebrada a concentração, ausente a admiração, a borboleta pareceu voar da mesma maneira, como alguém que se move simplesmente.
O vizir ordenou, a partir de sua experiência, que os preparativos da festa continuassem. Com vontade ou sem vontade, aquele moleque cumpriria a obrigação de sultão. Tudo precisava ser perfeito, e o vizir, com uma rispidez distante de seu habitual tratamento cortês dos súditos, comandava e fiscalizava cada tarefa singular.
Enquanto esbravejava com uma moça e um rapaz que tinham cometido erros grosseiros (ele, salgado demais um molho; ela, lascado uma taça por batê-la forte demais contra uma mesa), o vizir recebeu a ordem de ir ao encontro do sultão. Enfim, o moleque exigiria sua preparação especial para a festa! Enfim, as ordens chegariam, anunciando excentricidades no cardápio, nas cores e nas atrações! Enfim, o vizir conseguiria arrancar um momento de realeza do rapaz.
Chegando ao quarto, no entanto, encontrou o sultão contemplando um grilo com o mesmo afinco com que contemplava a borboleta.
_Meu caro vizir, sua dedicação é exemplar. Sua voz se faz ouvir enquanto você esbraveja com os súditos. A vibração de seus passos enérgicos invade meu quarto, e se faz sentir nos dosséis da minha cama. E embora eu não possa vê-lo com a porta fechada, sinto seu indicador apontando detalhes, falhar, correções.
_Muito obrigado, Majestade. O dia de hoje é um dia importante e especial, e vossa majestade precisa estar preparado e adequadamente ambientado.
_Vê, meu caro amigo e mestre e conselheiro, que é exatamente aí que você se engana? Hoje é um dia em que contemplar o grilo ou a borboleta deve consistir em contemplar o grilo ou a borboleta. Eu tentava, em vão, encontrar uma palavra que definisse aquilo que eu contemplava alguns minutos atrás. Pensei, por um momento, que aquele voo fosse uma espécie de presente de aniversário. E no entanto, não há aniversário. Hoje a borboleta voa como sempre voou, olhe-a eu ou não. Se em um único dia julgo que os saltos do grilo são maravilhosos, e que o voo da borboleta é maravilhoso, e que são dignos de meus olhos reais e de minha presença real, então todos os dias devo dar a eles meus olhos reais e minha presença real. Compreende, meu amigo?
_Compreendo, majestade. Devo, então, povoar nossa festa de grilhos e borboletas, e manter alguns no palácio para que vossa majestade possa vê-los em cada dia?
_Não, meu caro amigo. Deves olhar o grilo, que salta como um sultão, e a borboleta, que voa como um sultão, com olhos de sultão.
_Mas apenas vossa majestade tem olhos de sultão.
_Nem mesmo você está convencido de que eu tenha olhos e mãos de sultão, meu bom amigo. Ou uma voz de sultão, ou pensamentos de sultão. Você, o palácio, os olhares em volta, são quem opta por fazer-me sultão todos os dias. E você, eu, os olhares em volta, somos quem opta por fazer súditos dos súditos todos os dias.
E o vizir, então, compreendeu o que era terrível, e que aquele homem jamais seria, de fato, um sultão como seus ancestrais.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Fake, fake, fake...

Você, torcedor são paulino que desistiu ontem, que largou o jogo no meio, e que soltou a frase "já tá perdido" ou qualquer variante dela,

você não é um torcedor de verdade. Você é um desses acostumadinhos a tricampeonatos, a comemorações confortáveis e a trocar os jogos importantes do seu time por noites de raiva e de tédio no facebook. Você sabe o nome dos jogadores porque gosta de xingá-los. Não interessa se você vai ao estádio quando pode ou se vê do sofá, ou se acompanha pela internet: esteja onde estiver, você não é um torcedor. Você não sofreu por amor quando seu time estava ameaçado de rebaixamento: sofreu por vergonha. Você não disse pros seus amigos, com convicção, que seu time não iria cair; você fugiu deles. A cada derrota, você largou seu time no meio. A cada jogo ruim, você largou seu time no meio. Você não é um torcedor.
Aprenda com os torcedores da ponte preta, que gritam, cantam e acreditam depois de tomar um gol. Que acreditam no que todos os outros dizem para eles ser impossível, por amor e por fé. Aprenda a conhecer a história do seu clube, a saber que, antes de ser o time mais vitorioso do Brasil, como você gosta tanto de dizer, ele deveria ser o SEU TIME. Aprenda o significado da frase: ESSE É O TIME ONDE A MOEDA CAI EM PÉ.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rogério Sêneca?



Amanhã, a imprensa distorcerá o que Rogério Ceni disse ao sair de campo. O ídolo são-paulino, pressionado por duas perguntas seguidas sobre sua suposta aposentadoria, deu uma declaração sobre o clube em que trabalha. O teor da declaração será esquecido; a frase marcante, lembrada. “Dá para assinar contrato em branco”, disse o goleiro. Antes, fez filosofia sobre o tempo, o acúmulo de marcas e conquistas na vida, e a impossibilidade de se comparar gênios a’O Gênio (no caso, Rogério Ceni a Pelé, mas a frase poderia ser aplicável a Jonathan Litell e Liev Tolstoi). Não é a filosofia que será lembrada amanhã. Amanhã, uma frase será notícia, espremida entre as palavras de uma redação.

Parte da imprensa fará o que faz todos os dias: escolherá um recorte que se encaixe naquilo que quer e precisa, pelos motivos que for, dizer. Quando encontrar aquilo de que precisa, comemorará não como quem comemora um gol, com paixão e emoção pura, e sim como o torcedor cínico que, com um sorriso amarelo, comenta com um cúmplice a desclassificação do rival. O sentimento não será o de dever cumprido, mas o de ter tomado sua pequena parte na ração diária de erro sobre a qual nos fala Drummond. A vida seguirá seu fluxo, o tempo sua marcha, e as marcas, seu acúmulo.

Rogério não será a única vítima da imprensa. Jogadores e dirigentes de muitas outras agremiações terão o mesmo tratamento. Políticos terão o mesmo tratamento. Jovens entrevistados nas ruas, acidentes de automóvel, a morte de cantores; tudo terá o mesmo tratamento. Em algum lugar, quase sempre com público menor, outra parte da imprensa levantará sua voz e tentará fazer jus às palavras de um goleiro, de uma mãe ou de uma massa. Todos os dias, no entanto, o embate se dará não entre os órgãos que buscam a informação e aqueles que a aproveitam, mas sim entre a verdade e a vontade de falsificação.

O futebol não é um reino mágico: está intimamente ligado à sociedade. A ele estão associados grandes capitais, a imprensa, multidões, paixão, simbologia... A lista de cordões que o ligam à sociedade é imensa. Os jogadores de futebol podem ser símbolos de alienação e de desprezo, ou de rebeldia e consciência política. Como os artistas, os atores de cinema, os cantores e os padeiros. Não entrarei no mérito eterno de que futebol não é, necessariamente, alienação. Ficarei com o inegável: sendo fruto e parte integrante de uma sociedade complexa, não pode ser visto como simples brincadeira.

O futebol tem, no entanto, uma particularidade: talvez pela paixão, talvez pela exposição, talvez pelo volume de dinheiro que por seus centros circula, tudo está nele como que focado por uma lente de aumento. As palavras de um jogador são ouvidas e repetidas com mais constância que as de muitos líderes de oposição; são discutidas à exaustão por especialistas da informação e por especialistas da cerveja e do amendoim salgado. Se tudo ganha eco e se amplifica, deveríamos ser mais capazes de ver, nesse mundo, o que o repórter investigativo (e não um repórter esportivo) foi capaz de observar. Falo de Andrew Jennings, autor de dois livros sobre a corrupção em universos distintos: a Igreja Católica e o futebol. Vaticano e FIFA. Jennings diz que foi muito mais fácil investigar o último: afinal, a soberba de seus condutores (de seus Berlusconis) não lhes permitia que escondessem rastros e pegadas. Entre as quatro linhas, tudo estava mais às claras que entre as quatro paredes sagradas.

Mas do que mesmo eu falava? Ah, sim: amanhã, distorcerão as palavras de Rogério Ceni. Retirarão de contexto seu elogio à estrutura de seu clube. Rogério dizia que nunca pediu um adiantamento ao clube, e que nunca recebeu um salário atrasado. Dizia que dispunha de toda a estrutura que queria. E que com um clube assim, não havia questões de negociação para um eventual contrato: era possível assinar um contrato em branco. Afinal, a confiança, depois de anos de trabalho, é total e absoluta. “Dá para assinar contrato em branco”. Amanhã dirão, somente, que Rogério disse, numa entrevista sobre sua aposentadoria, que “Dá para assinar contrato em branco” com o São Paulo. A filosofia, por valiosa que fosse, será deixada de lado. E um pequeno desvio fará mágica. A mesma mágica que, todos os dias, é feita em todas as sessões de muitos dos jornais, dos programas de tevê e das emissões de rádio. A mesma mágica que foi feita hoje e ontem.

domingo, 20 de outubro de 2013

Reorganizações

Se tenho saudades de algo, é do dia em que, tendo já comprado "Estorvo", de Chico Buarque, me sobrara quase a metade de um vale presente da livraria saraiva, e, indeciso, resolvi escolher um outro livro. Passei os olhos por algumas estantes, mas, sendo estudante do terceiro ano do colegial, me faltava repertório: é comum, nessa época, adquirirmos os livros de que nossos amigos gostam, ter muito receio com aqueles que nossos pais recomendam e ter medo daqueles que os professores de literatura dizem ser os melhores.

Em algum momento, tentava me lembrar de alguma recomendação, enquanto meus olhos, vagabundos, escalavam as letras deitadas dos títulos sem que meu pescoço se flexionasse. E quando minha memória me incomodava, por se recusar a trabalhar, a de um elefante é que se apresentou. Eu lera (claro!) no jornal, alguns dias atrás, uma matéria sobre António Lobo Antunes, de quem nada conhecia. O livro era curto e, além disso, quase não excedia o valor do vale. Coincidências financeiras. Achara meu segundo livro e, em breve, estaria lendo Chico Buarque, cujo show eu veria em algumas semanas, se conseguisse o ingresso que desesperadamente procurava.

No caminho para casa, a orelha do livro me fizera sentir um frio na barriga: será que é esse, e não “Estorvo”, o livro que lerei à noite? Sei que gosto do tal do Chico, desse carioca dos olhos azuis e de voz de coitadinho que precisa de amparo (e a quem metade das mulheres do país parece querer amparar); por que não, então, dar uma  chance para o tal Lobo Antunes, a despeito de ele ter metido a boca em José Saramago? Guerra de Angola, desmanche do Império Colonial Português... Abri o livro.

O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de paste de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:

Assim escrito, foi assim que li: de um gole só, rápido, pensando “car...”. E antes que eu pudesse concluir o pensamento, as próximas frases se engatavam. Aparentemente, eu não tinha comprado um livro, mas um feitiço que, uma vez lido, me transportaria não para outra dimensão, e sim para dentro da mente de alguém. Ter aprendido o que era um fluxo de consciência foi o equivalente, na minha vida, a ser abduzido. Há quem diga que sem as luzes, os instrumentos afiados e a sabedoria milenar, mas não: havia luzes quando as armas disparavam nas noites angolanas, facas perfuravam a carne de soldados, para salvá-los da morte ou da guerra; e a sabedoria milenar, meu Deus, ela tinha que existir em algum lugar. De novo o palavrão se formava em minha mente. Antes que eu pudesse terminá-lo, bati o livro.

Li Memória de Elefante em dois dias e duas tacadas: a primeira, entre a chegada em casa, às nove e meia da noite, e as quatro da manhã. A segunda, entre as oito da manhã e o meio-dia. Um ano depois, já estudante de literatura, leria Os Cus de Judas. E igualmente me apaixonaria por suas primeiras palavras, que cito de cor a quem me perguntar na rua: “Do que eu mais gostava no Jardim Zoológico era o rinque de patinagem...”. Anos depois, morando em Essen, na Alemanha, eu finalmente patinaria – no gelo – e a primeira coisa em que pensaria, antes do frio ou das excelentes companhias, era no livro.

Se tenho saudades de algo, é da fúria com que devorei Memória de Elefante, do modo como imediatamente, ao conhecer Lobo Antunes, tive que alterar o tamanho de todos os outros escritores que moravam no meu parco repertório. Troquei cadeiras, removi presentes, redistribuí os louros. E como um tirano que encontra uma nova amante, festejei uma nova divindade no meu panteão. Do vinho dessas festas é que tenho mais saudades.


Li, eventualmente, Estorvo. E graças a uma vizinha maravilhosa, fui ao show do Chico. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Trecho



Olhei os navios; nada. Era como se eles não tivessem existido nunca, embora estivessem ali. Eu os olhava, sabia que os olhava, mas nada vinha à minha cabeça, nenhum tipo de atitude me tomava. Eram oito, e embora estivessem no horizonte, se aproximavam a uma velocidade assustadora. Não havia gaivotas, peixes ou qualquer tipo de animal. Em outros tempos, eu teria intuído um golfinho; agora, via a movimentação em linha reta daqueles animais de ferro, chaminés e cargas. Como se percebessem de chofre minha ataraxia, frearam imediatamente, pararam, e por três segundos que talvez tenham sido vinte, pareceram boiar, simplesmente. Não havia qualquer tipo de neblina ou impedimento, e o céu era claro, azul. Não havia qualquer tipo de controle: estavam ao léu, sob o sol, e era ali, aquele movimento aleatório das ondas, o seu habitat natural. E então, todo movimento cessou. Como se o mar se congelasse, ou se fizesse calmo por intervenção divina, os navios pareceram atracados, sem indício qualquer de âncora. Permaneceram nesse ínterim por cinco minutos, estes contados (não sei explicar por que, mas no momento exato em que os percebi parados, comecei a contar, chegando ao número trezentos).
Trezentos. E, mais uma vez num golpe brusco, teve início uma dança sobre as águas, que não só pareceu movimentá-las de modo caótico, mas criar uma espécie de sinal ou ritual para abertura de um portal. Enquanto trocavam de posição, eu os observava e, pela primeira vez, percebia que fazia um esforço para compreendê-los. Até então, tudo era para mim observação, e apenas isso; o uso da visão e mais nada. Conforme mudavam de direção e assumiam diferentes velocidades e potências, pensei que pudesse haver algo. Mas como um grupo de jogadores de futebol americano depois de se reunir para combinar a estratégia, cada um dos navios seguiu para um lado, uns mais próximos, outros mais distantes. Sete deles ganharam o mar (lembro-me de tê-los contado em voz alta), e um veio em direção à ilha atrás de mim. Minhas braçadas e pernadas automáticas deram lugar a uma série de movimentos coordenados que, sem pensar, eu fazia para me posicionar, como por instinto, num determinado lugar, sabendo que seria aquele onde as ondas produzidas pela aproximação do cargueiro que restara.
A onda me pega. Pega e leva diretamente para a ilha, como uma mão, pousando-me sobre a areia branca. Nesse momento ainda não penso: embora tenha dito palavras, tenha tido impressões, não penso. Minha mente está vazia como em um ato de meditação, e sei que meus movimentos, embora precisos como os de um relógio, não são calculados. Fui entregue.
O navio está atracado. Não sei quanto tempo se passou desde que cheguei à areia. Olho em frente: Entre as palmeiras um coco (o cenário me parece familiar), o sal deve ter me carcomido de algum modo, a luz do sol – um vento – os tremores, a trégua (Japão) tudo aqui é tão limpo – um cheiro; A casa de verão, minha mãe, um amigo, a ilha, o capitão sai de dentro do navio. Sei que, de lá, ele me olhava.
            Talvez com rancor.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Manifesto imaginário diante de um caso não imaginário

(Supostamente escrito pelo capitão Bloch-Rochelle, em torno do ano de 1900, e encontrado entre seus arquivos pessoais).


Não há engodo em pensar, meus senhores e senhoras da grande França. Engodo algum. O engodo está justamente no não-pensar, no utilizar a mente para qualquer outro propósito que seja o de não-pensar. Ou antes, devo me corrigir, no utilizá-la para um propósito que seja o de não-pensar diante de outros, de outras. Diante do próximo, do distante, do estrangeiro ou do patrício.

Alguns nos têm acusado, com bastante veemência, de nos postarmos contra a nação francesa quando defendemos que um preconceito não deve guiar um julgamento. Dizem que prejudicamos a unidade nacional, que o país está desmoralizado em virtude das recentes crises, e que nossa ação, que se guia por uma “petulância de academia”, é um atentado à cultura.

A cultura, meus senhores e senhoras, é mais que um mero verniz, que o toque final da glória e da beleza de uma nação ou de um povo. A cultura não serve como objeto de exibição (embora tenha servido), como atestado de posição social (embora venha servindo) ou como uma pequena jóia adquirida a custo de muita economia visando algum tipo de auto-afirmação (embora, ultimamente, a metáfora tenha sido muito precisa na descrição do que se têm feito da mesma cultura).

A cultura, meus senhores e senhoras, é muito mais que o tal verniz; é um processo através do qual o homem, imerso em sensações que não pode compreender completamente, é forçado a utilizar a faculdade do pensar. Ainda que saiba que as obras de arte, que os objetos de cultura, não apelam exatamente a esta faculdade.

Alguns, perigosamente, crêem que associar a cultura e o pensar é um equívoco. O equívoco é não fazer a associação, por mais dolorosa que ela seja. A faculdade do pensar, meus senhores, não diz respeito (que perdoem-me os meus rigorosos colegas da filosofia e da lógica, que me têm sido tão amáveis, por me intrometer em seu domínio) única e exclusivamente à ordenação de categorias, à classificação, à transformação das coisas ao molde da mente pensante. A provocação da cultura, a grande provocação, é justamente jogar com esse molde. É transformá-lo, é quebrá-lo e vê-lo se reerguer de diversas formar.

A cultura, meus senhores e senhoras, nos atrapalha muito em nossas convicções e julgamentos. Coloca-os na berlinda. Assim, é impossível acessar a cultura tomado de conceitos estabelecidos antes do ato. Para acessá-la corretamente, para poder entrar em seus salões e beber de seu néctar, é necessário deixar as convicções do lado de fora da porta. Com isso, não quero dizer que o homem ou a mulher que acessa a cultura está sem convicções. Se elas forem suficientemente sólidas, suficientemente embasadas, persistirão, e ganharão força. Mas apenas ganharão força se forem questionadas. Levar, para um julgamento como o do caso Dreyfus, que passo a chamar aqui o caso Dreyfus-Zola, as concepções prévias sobre os judeus ou os socialistas é incorrer em erro tão grande quanto julgar que um romance de Zola é bom apenas por ter sido escrito por Zola. Afinal, o próprio Zola também se equivoca. É, ainda assim, o homem mais corajoso deste país. Por não temer seus erros, sabendo que são frutos, sempre, de seu pensar.

O pensar, meus senhores e senhoras, é representado, simples e somente, por esta faculdade de questionar e questionar-se. O não-pensar é exercido todas as vezes que uma convicção é repetida e repetida, sem cessar, em frases absurdas como “ainda que o réu seja inocente, é a unidade da nação que está em jogo”. A ideia da unidade da nação pode atropelar a inocência de um réu? Não, meus senhores, não pode.

No primeiro parágrafo deste manifesto, creio que deixei bem claro um equívoco cometido por mim. Além de tê-lo deixado claro, fiz uma correção ao meu erro, uma correção imediata, que visava a precisão. Iniciar uma ação por um erro pode ser considerado, por muitos, como tolice. Tolice maior ainda seria não iniciá-la, quando se supõe haver motivos para fazê-lo. Mas a grande estupidez, a grande idiotice (se me permitem o uso da palavra agressiva) seria, iniciada a ação, perceber nela um erro e não, imediata e energicamente, corrigi-lo, e tornar a correção pública. Principalmente se a referida ação disser respeito a outros. É neste espírito, senhores, que os exorto a corrigir seus erros, e a exigir de seus governantes, comandantes e generais que corrijam seus próprios erros. A glória não está em não errar; está, meus senhores e senhoras, em não-pensar.


Pensem, meus senhores e senhoras. Pensem incessantemente. E afastem de si o não-pensar!




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O texto acima é apenas um pequeno exercícios de imaginação, produzido em virtude de leituras recentes sobre a história da França.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Dudinca mata Dadinho



(minha parte no tríptico escrito em conjunto com o Guilherme de Faria Rodrigues e o Gabriel Medeiros.)

Ela entra na casa e bate a porta. A chave, tocada por seus dedos, rapidamente gira duas vezes em torno de seu próprio eixo. Suas costas se apóiam. Na madeira que a protege.

Um turbilhão de coisas passa por sua cabeça: como você chegou aqui – eu prefiro ele – somos uma irmandade, quase – o preço do tomate é um absurdo – o que é que você bebe – eu não costumo cozinhar para os outros – por que você acha  Milton Nascimento melhor que Chico? – quanto você sabe – o que é que você disse sobre o caso Dreyfus – quantos aqui neste prédio ouvem – bonsais – não quero me despedir de você – quando ele vem – tchau – o que você está fazendo aqui – eu prefiro ele – as suas unhas – as costas dele – quanto disso tudo; Ela fixa seu olhar no meio do copo, e a água, caindo do filtro, começa a preenchê-lo. Gira, imediatamente, o botão quando a água atinge o ponto no qual ela se refugiou. Toma, de um gole só, e repete a operação.

Repete a operação mais uma vez.

Começa a ouvir os passos dele, o irmão, cada vez mais altos. As pernas curtas dificultaram a subida pela escada. Ainda assim, conseguiu vencê-lo.

Ela sabe o que vai se seguir. Ele, o irmão, vai gritar e pedir que ela abra; vai chorar e pedir que ela explique. Mas não há nada a explicar.

Ela se dirige ao seu quarto, quando recebe uma mensagem em seu celular. A mensagem é do canalha, só pode estar atrasada, e diz: “Eu prefiro ele”. Alguns minutos atrás, o canalha gritava embaixo dela, depois em cima dela. Quase sem ar. Agora, “prefere ele”. Filho de uma

A foto (antiga) dos pais, ao lado do disco do Clube da Esquina onde escreveram “filhinha, não deixe que seu irmão ignore isso. Beijo, mamãe e papai”.

Papai e mamãe. Ela olha para os ventres dos dois, expostos.

A porta é socada. O irmão vai tentar entrar. Ela pega uma foto dos dois, ela com o irmão no colo. 15 anos de diferença. “Meu irmão poderia ter uma foto assim com esse filho de uma”, pensa. Suas costas ainda doem um pouco com os arranhões. Doem as costas do irmão também?

O som da porta arrombada a direciona. Rapidamente, a mão esquerda impulsiona metade da gaveta para a frente; a mão direita conduz o salto do canivete, que, com um estalido surdo, aterrissa na escrivaninha nova.

Ela abre o canivete. Fixa nele o seu olhar, como, segundos atrás, o fizera.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Listas I: Para Ler na Adolescência

Sim, voltamos pra idéia da lista. Por que raios, meu amigo? Porque bom, as listas são interessantes e ponto final. É, pois é, você não quer ficar tendo que justificar as coisas desse jeito até o fim da vida, ou quer?

Listas são uma construção artificial. São fruto de uma porrada de coisas: momento, temperamento, TPM, briga com a mãe, medo de perder o emprego, paixão (por uma mulher, por um homem ou por um autor), bronca do orientador, surtos com a nota de uma prova de língua. Por que raios então uma coisa tão arbitrária é útil? Simples, benzinho: em primeiro lugar, porque você, que faz uma lista, é forçado a pensar, a organizar, a selecionar. Debaixo de todas essas pressões. É, meu amigo, você faz listas: de prioridades, de pratos pro seu casamento, de compras de supermercado. É um ótimo exercício priorizar. E é um ótimo exercício rever as suas listas, corrigi-las, guardá-las com data. E pra quem lê, então, qual é a utilidade? Bom, isso é o que nós chamamos de pergunta aberta. Experimente uma ou duas listas (você não experimenta o doce que a mãe do seu amigo fez? Vale a pena perder um tempo com coisa nova de vez em quando). Experimente dez ou quinze se for o caso. Quase sempre há algo que sutilmente liga os elementos dela. E que os liga à sua vida.

Rapidamente sobre essa lista: não li todos esses livros durante a adolescência. São sete, porque sete é um número que me agrada. Um breve (brevíssimo) comentário sobre eles. São, também, os livros que eu gostaria de ter lido quando adolescente; que darei para minha sobrinha quando ela for adolescente; que indico para os adolescentes que me pedem recomendações eventuais. Ah, um último adendo: os comentários são extremamente redutores, ok meninos e meninas? Descubram o motivo real de ler esses livros por vocês mesmos.

1. A Náusea – Jean-Paul Sartre: O topo da lista tinha de ir pra um livro que eu realmente li durante a adolescência. Por que esse livro de maníaco depressivo? Porque é legal aprender a passar mal com livros na adolescência; e porque é legal entender que não é só você que tem crises de “pra que raios eu vou usar tudo o que aprendo na minha vida?”

2. Demian – Herman Hesse: cliché, cliché, cliché … Livro clássico sobre um adolescente que se descobre. E sim, meu amigo, talvez você precise se descobrir.

3. Risíveis Amores – Milan Kundera: Se você um dia pretende entrar em contato com outra visão sobre o amor que não a de “fogo que arde sem se ver”, dê uma ligadinha pro tio Kundera.

4. O Brinquedo Raivoso – Roberto Arlt: um livro sobre um adolescente delinqüente. Provavelmente, ocuparia o topo da lista se eu escrevesse esse artigo amanhã ou depois.

5. Estrela Distante – Roberto Bolaño: Acho que o comentário mais adequado é: um romance policial de tirar o fôlego! (você descobre a surpresinha ou eu estrago? Ele não é policial... do jeito... hm... que você imagina; o cara DEITA).

6. A Filosofia de Andy Warhol – Andy Warhol: Não querido, não é uma introdução à filosofia pra você. É só pra você dar umas risadas também. Quando fechar o livro, é legal se perguntar “de que raios eu estou rindo”? Quem sabe assim você entenda o que é, enfim, o humor. Se entender, poste aqui, ok? Estamos esperando. Ansiosamente.

7. Paranóia – Roberto Piva: Pelo menos um de poesia. Faz um esforcinho vai. Daí talvez seja a hora de repensar alguns xingamentos que você usa; algumas palavras de baixo calão; alguns temas desagradáveis sobre os quais as pessoas insistem em conversar. (Se tiver tempo, leia Rimbaud também, ok?)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

My Idea of Fun

*Notas preliminares:

1- Estamos de volta depois de um mês de “férias”, inteiramente dedicado à minha monografia de conclusão de curso. Correria!

2- Esse texto é dedicado à Isabelle Penha Ribeiro, amiga querida, cujo trabalho e dedicação tenho a honra de acompanhar de perto. Agradecimento especial a ela pelo convite para publicar o texto A Reinvenção de Orfeu na revista de cultura que a tem como uma das editoras, a Pop-Up. Não percam!

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Ele é magrelo, parece uma lombriga, é bem velho e faz você ter inveja da sua energia quando pula, canta e domina o palco. Por mais de uma hora e meia. E além de tudo ele é meio estranho. Iggy Pop é bem diferente dos Beatles, dos Rolling Stones, e também não é nada parecido com os ídolos Jimmy Hendrix e Janis Joplin. Enquanto eles aparecem em grupos de semelhantes, a figura de Iggy se destaca brutalmente dos demais Stooges. Sim, o cara é diferente, e a música dele é diferente também. Afinal, não se declara o amor, via de regra, cantando now I wanna be your dog; para conseguir achar isso maravilhoso (e acreditem meninos e meninas, é maravilhoso) é preciso se deixar levar por aquilo que Iggy pensa, fazer um pacto com ele ao longo das músicas. Ou seja: dar um peteleco na preguiça.

Tudo bem, mas você não tem que criar coragem de abrir uma música. Seu amigo põe no carro, ou calha de estar tocando no café da esquina. Eventualmente, uma homenagem à sua tenista predileta no Youtube a traz como trilha sonora... E depois, sempre temos o maravilhoso “O que você está ouvindo” no MSN, perfeito pros dias de tédio musical. Mas raramente alguém lê pra você um trecho de livro; nunca você vai cruzar com um à toa. Sim, podem falar algo, mas daí até chegarmos às letrinhas miúdas... Principalmente quando o livro nos dá a maldita preguiça. E no geral, isso está relacionado ao tamanho do dito cujo.

Sim, livros de oitocentas ou novecentas páginas... QUÊ? Sim, livros de duas mil páginas em oito volumes. Como, mas como raios se animar pra ler um livro que talvez leve o mês inteiro ou até um ano pra chegar ao fim? Olhamos a Montanha Mágica, de Thomas Mann, e num primeiro momento ela é muito mais montanha. Sim, é preciso persistir; livros como esse, no geral, dão muito pouco de si aos leitores no começo, vão se revelando aos poucos. Sim, enquanto seu amigo comentou dos últimos cinco escritores que leu, você diz com orgulho “cheguei até a metade!”. Escalar essas páginas requer uma vontade especial de ver o mundo do topo.

É só de lá, no entanto, que podemos ver um certo tipo de mágica. É que por serem tão cheiso de detalhes, se ocuparem tanto tempo de alguns personagens e nos manterem curiosos pelo mundo que nos oferecem, esses catataus de trocentas-e-lá-vai-pedrada páginas revelam algumas coisas que os livros pequenos não têm. O camarada até fica chato, fala sempre do mesmo assunto, conta a ação do livro como se fosse fofoca quentinha; perde a noção de que não são todos os que estão vivendo naquele lugar. Chega, inclusive, a marcar na agenda o horário da palestra do Dr. Krokowski, ou então passar raiva por não receber um convite para o sarau da Duquesa de Guermantes. Que nem quando começa a namorar; só que é mais difícil dizer que não se vai com a cara de uma namorada de oitocentas páginas.

O pacto é difícil, mas vale a pena. É preciso, vez ou outra, deixar de sair um diazinho; talvez, pensar em não ler a revista semanal, em sacrificar uma hora do dia durante um bom tempo. O livro está lá pra ser enfrentado, e não adianta querer calcular quão mais próximo se está do fim. Aos poucos, o tesão aumenta; você entende uma coisa, entende outra, as engrenagens se encaixam. Você é surpreendido, e a surpresa te deixa puto da vida. Você se programou pra ler trinta páginas no dia, e lê cinqüenta, sessenta. Um dia engata; lê cem. E era um sábado! Finalmente, você entende pra que raios servem os domingos, do mesmo modo como entendeu por que três acordes eram suficientes, ou o que tinha a ver o saxofone com o rock. Você cria uma nova idéia sobre diversão, e urra pedindo pro livro levá-lo para passear. Com a coleira e a guia entre os dentes.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Bode Pós-Livro

Conheci meu livro preferido, como se deve conhecer essas coisas, numa “conversa de bar”. Eu, uma conhecida (que eu mal conhecia) e uma amiga dela falávamos sobre livros. A amiga, digamos “Molly”, dizia que não conseguia terminar um livro. Nunca. Não interessava o quão bom ele fosse, ou quanto ele se relacionasse com a vida dela. Pelo que dizia, Molly lia. Muito. Só não conseguia chegar aos finais. E ela me dizia isso porque esse livro, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, era o primeiro livro “sério”, adulto, que ela terminava. Pensei “caramba, preciso ler isso”, igualmente influenciado pela minha sede de moleque de 17 anos que queria ler todos os romances bons do mundo e pela minha sede de moleque de 17 anos de impressionar a menina e poder, um dia, levá-la pra cama ou pro canto.

Óbvio que nunca mais conversamos. Óbvio. Mas comprei o livro no dia seguinte, e em dois dias eu engoli aquelas páginas. Precisei, imediatamente, recomeçar o livro, assim que tinha terminado. Dessa vez, com mais vagar, demorei uma semana. Não li virando as noites (como costumava) sem despregar os olhos das linhas, mas parando, me deitando, encostando a cabeça na parede, no travesseiro, no chão, onde desse. O processo de leitura tinha sido completamente diferente. Até que, no sétimo dia, quando terminei a única releitura que seguiu imediatamente a leitura na minha vida, bateu. O livro tinha acabado, e o meu convívio com aquelas personagens também. Eu poderia voltar a ele, poderia reler uma terceira vez ou me tornar monomaníaco e reler uma oitava, uma nona, uma vigésima vez. Mas tinha apreendido uma parte suficiente do livro. Ele tinha realizado um processo na minha cabeça, na minha alma, no meu corpo, e eu aproveitei esse processo e sofri com ele e me deliciei com o sofrimento. Só que o livro acabou, o processo acabou, e era preciso voltar pro mundo. Bateu.

Por que raios Molly (que vi esses dias num bar, alguns quilos mais gorda e falando um monte de merda) não terminava os livros? Não tinha parado pra pensar, embora não fosse a primeira vez que eu sentia um final. Nos filmes geralmente era fácil, todo o ritual: a luz acendendo, o “massa né?” do amigo ao lado, a inveja dos casais que perderam a última cena pra virar protagonistas de alguma outra coisa, a vontade de ir ao banheiro depois de mais de meio litro de coca-cola aguada... Em casa então, um dos cômodos claros (banheiro ou cozinha) resolvia o problema. É só comer um pedaço de queijo, ou tomar um coca, ou dar uma mijada e tudo fica certo. E quando se termina um livro? O mais sensato a fazer, talvez, seja ligar pro amigo que o recomendou (quando ele existe), mas pode ser tarde. Ele pode não se lembrar da cena que você quer comentar e tudo... O que é que se vai fazer no exato momento em que a última palavra aparece, e resta só fechar a capa?

Claro que os livros operam de formas diferentes nas pessoas. O fim, no entanto, é sempre uma experiência parecida, e por isso dá vontade de ir logo pra ele, acabara, começar o próximo livro ou não começar mais nada. Temos que nos despedir daqueles personagens, daquela atmosfera. E mais do que isso: quando a narrativa acaba, já não há mais diferença ou fronteira entre você e ela. Aquelas páginas fazem parte do leitor, e não é possível mais “viajar”, “se sentir em outro lugar” ou qualquer uma dessas baboseiras que os falsos amantes de literatura clamam fazer. Fim da linha, e agora é que vamos ver se o livro é bom. Porque os bons estão presentes, não onipresentes, mas à espreita numa esquina. Versos e pequenos fragmentos narrativos nos aguardam, depois do fim de uma leitura. Surgem inevitavelmente, e é esse o temor do final. O bode que se segue ao texto, e o silêncio que vem com ele. A certeza de que sim, Molly, agora que você acabou esse livro ele é seu. E não interessa quanta merda você fale no bar, nem quantos quilos engorde. Ele ainda lhe alcança. E quando bate, querida...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Literatura e as Idéias

Os livros são objetos muitíssimo sérios. Os que recorrem de alguma forma ao humor, acima de todos os outros. Porque escrever, não na acepção do verbo que significa deitar palavras, mas naquela que quer dizer organizá-las, dá-las algum tipo de forma, de amarração, isso é muitíssimo grave. Não pelo fato de exigir tempo, esforço, um conhecimento mínimo e muita paciência (embora exija um belo bocado disso tudo). Não; escrever é sério porque é uma ação que ultrapassa as barreiras do privado, porque atinge a esfera do outro. Porque as palavras podem ser achadas, e uma vez achadas, podem ser incorporadas.

Ninguém duvidará do poder sobre as idéias que os livros exercem, ficção ou não. Pregados (muitas vezes arbitrariamente) aos pensamentos do indivíduo, os trechos escritos em uma determinada ocasião percorrem túneis a velocidades supersônicas, em cujo interior são desmembrados, pelados, desprovidos muitas vezes de sua pele e de sua estrutura óssea para chegar a uma outra mesa como ingrediente ou tempero. O percurso os aquece, de modo que ainda que sejam requentados, farão parte da refeição sem se acusar. Descascados, moídos e requentados, Nabokov, Rosa, Nietzsche, Sartre e outros nomes são postos aí, como uma pequena degustação. E sabem a mediocridade.

Esse não é, no entanto, um problema. Que se reserve, pelo amor da memória, o direito a adolescentes ou adolescentes tardios de citar quem queiram em suas páginas de redes sociais; vá lá. Não é essa a questão. Até porque, as coisas isoladas, assim, têm o direito a ter significação própria, inclusas no contexto de vida da pessoa. O problema é que essas idéias circulam, e aquela primeira prática, a de deitar palavras sobre um papel, se confunde rapidamente com a segunda. Isso é um primeiro perigo. Pois a partir do momento em que as grandes idéias que foram diluídas em água são passíveis de comparação com a água pura, ali sim há uma anomalia. Perde-se a fronteira da seriedade.

Parte do respeito à escrita e à literatura vem do comprometimento com a tentativa de fazer literatura, e principalmente de fazer circular literatura. A ausência de pretensões, na boca de tantos os que se lançam ao duro trabalho do livro, está tão na moda quanto a pretensão total. São recursos, é verdade; mas se tornam nefastos quando são o único recurso. Digo e repito: a literatura é séria. E é séria porque é um ato que envolve mais de uma pessoa; caia ela em mãos erradas e povoará os mais horripilantes pronunciamentos. Ainda que não se acredite na sua força.

O século XX viu as regras da literatura serem postas abaixo, como as da arte. Viu o esforço monumental para recriá-las, para dar sentido ao que já não parecia ter sentido. Nossos antepassados tentaram muito: colagem de fragmentos, reescritura, outros critérios, ironia, incorporação da crise. Tudo isso se tornou matéria de arte e matéria de literatura; nada disso ficou nulo como veículo de idéias. Mais ou menos acessíveis, da destruição do passado de Marinetti à interpretação do mundo como museu de Duchamps, tudo teve devidamente uma insinuação à mente. Essas insinuações, no entanto, não foram gratuitas; foram frutos de esforços, e sua compreensão também foi fruto de grandes esforços. Se regras foram abolidas, isso não aconteceu para que fossem ignoradas, e sim para que fossem levadas em conta. Lembrem-se de que derrubamos esses prédios.

Por isso a reciclagem de idéias é tão perigosa. Não apenas na literatura ou na arte; não se pode perder de vista que a escrita automática de Breton, por exemplo, só podia ocorrer porque se acreditava num resultado da escrita automática que tivesse um comprometimento com a literatura. Qualquer pessoa que deseje criar algo precisa estar seriamente engajada em sua criação, seja ela artística, filosófica ou política. Porque afinal, nada está tão ruim que não possa piorar. Nem os textos alegóricos.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A reinvenção de Orfeu

Há um determinado grupo de homens e mulheres cuja imagem preserva um frescor eterno. Não interessa aonde se vá ou em que classe social se procure, seus rostos estão lá em algum canto. Buda, Che Guevara, Kurt Cobain... figuras que não apenas preservam-se enquanto selo, mas que em alguma medida permitem, a quem quer que os olhe, o vislumbre de uma idéia. Claro que apenas algumas pessoas terão acesso a esse pensamento, e que haverá visões diferentes sobre ele. Afinal, um Buda colocado por uma típica desperate housewife em sua casa é, a rigor, um objeto decorativo para trazer paz e equilíbrio. Para um iogue, no entanto, aquele homem sentado na posição da flor de lótus representa uma série de conhecimentos e um caminho a ser trilhado pelo corpo e pelo espírito.

A imagem de Arthur Rimbaud é em si completamente atípica entre os ídolos de juventude. Em primeiro lugar por se tratar de um homem do século XIX, quando via de regra as estampas nas camisetas e nos álbuns de Orkut são de fotografias do século XX. Afinal, as pessoas do século XIX parecem ter uma característica unificadora: todas são essencialmente feias (vide Rainha Victoria, Charles Darwin, Leon Tolstoi e Dom Pedro II). A exceção é um moleque de olhos profundamente azuis e tez muito clara, que escandalizou e encantou Paris com sua poesia, seu comportamento e sua beleza. Rimbaud nunca pareceu ter nascido para integrar as fileiras da normalidade.

Se o poeta francês se tornou o estereótipo do jovem escritor, isso se deve, mormente, ao poder de sua escrita, que encantou completamente uma outra figura pop bastante cultuada: Jim Morisson, vocalista da banda The Doors. Morisson não apenas escrevia poesia, mas acreditava ser a reencarnação de Rimbaud. Fez, com sua música, sua imagem e sua performance delirante no palco, com que os adjetivos que foram cunhados para seu ídolo lhe fossem perfeitamente aplicáveis: enfant térrible e poète maudit, o cantor trazia a seu público uma vontade de explosão e de libertação. Morisson retomava o verso de Rimbaud que serve de epígrafe a esse texto e que, uma vez escrito, permaneceu parado e incômodo entre duas fases da vida: a infância e a vida adulta. Os poetas não queriam mais voltar à primeira, e a segunda era entediante demais.

Esse grito parado no ar parecia chamar leitores e não leitores a algo outro. Não mais as besteiras da infância, com suas brincadeiras que preenchem a mimese porca da vida adulta. Não mais os caprichos dos deuses diante das necessidades de pagar aluguel, ter companhia e ser o oposto de imprestável. Dado do ponto mais alto de um entreposto, o brado rimbaudiano rompia com toda uma tradição que queria voltar à infância. Adoecia, e sua doença era a juventude; era estar louco, e nessa loucura encontrar a lucidez de antes da morte. Adoecia e era ele próprio a explosão do que definha. Antes de se tornar adulto, queria permanecer aquilo, todos os sentidos desregrados através de uma disciplina férrea.

O grito que erguia no ar não era, como muitos pensam, uma afirmação conclusiva típica de um adulto que sabe o que está falando. Era antes uma resposta, ensaiada por tantos, no momento em que as regras e as obrigações atingiam um auge cruel (com o ritmo da vida sendo cada vez mais ditado pelo relógio da torre). Não se pode ser sério aos dezessete anos. O verso que antecede esse primeiro verso (quase sempre o verso mais importante de um poema, essa presença invisível e imprescindível) é um simples clamor de seja sério, cresça. Não, Rimbaud não crescerá. E num momento em que se é necessário escolher “a carreira pro resto da vida” exatamente aos dezessete anos, sua imagem continuará sendo cultuada; seus versos continuarão sendo lidos e declamados. E cada vez com força e frescor maiores.

domingo, 29 de agosto de 2010

Para ler com os culhões I



Por que há aquela classe de escritores que relutamos em indicar pros nossos amigos, que não comentamos com nossos pais e que temos vergonha de ler na sala de espera do consultório? Não seria absurdo evocar qualquer um dos argumentos à mão: “o que importa é a cultura”; “você deveria se orgulhar por estar lendo”. É, mas na prática é bem diferente quando a mocinha bonitinha do elevador pergunta pra você sobre o que é esse tal de “A História do Olho” aí. A risadinha dela é inevitável, e o seu equilíbrio na tênue linha entre as vontades de se esconder e de esmurrá-la também.



O embaraço da situação não tem, no entanto, um motivo lógico. A reação é quase sempre involuntária, imediata; as pessoas riem. “Uma antologia do quê?” “De poesia erótica”. As pessoas riem... E depois nos perguntam o que é uma antologia. Fascinadas pelos pães quentinhos na lista de mais vendidos das revistas semanais, elas não poderão compreender ao certo por que você está lendo algo que não o ajuda a crescer espiritualmente, ou que não é “aplicável”. Até porque, tempo é dinheiro, e o ideal é usar o seu tempo de modo a “investir em capacitação”. A única resposta possível, nesse caso, é “ah, mas eu me divirto lendo”. O que pode ser verdade em alguns casos. Não nesse.



A classe de escritores que está em pauta não é simplesmente parte dos “chatos da literatura”. Os motivos que nos levam a não recomendar José Cardoso Pires são bem diferentes daqueles que restringem Roberto Piva ou Henry Miller. Embora seja verdade que todas as pessoas vêem pornografia em algum momento, ou pelo menos sonham em vê-la, essas mesmas pessoas não estão realmente dispostas a admitir isso. Ver elementos desse inominável em um “objeto de cultura” é perturbador. A literatura, sendo momento de diversão, não serve para que encaremos o sexo (e a vontade dele), a violência (e o impulso para ela), a perturbação. Afinal, o mundo já tem o suficiente disso. Não há motivo para usar a leitura, o momento de fantasia, para ver mais do mesmo.



O problema (e é um grande problema) é que não é mais do mesmo. A violência, a sexualidade e o desespero são, sim, temas que perpassam o cotidiano. Fazem-se presentes em pequenos momentos, nos quais nos dignamos a contemplá-los ou a vivê-los entre quatro paredes e nos jornais. Porque é esse o lugar deles. Exceto pelo fato de que não é esse o lugar que eles ocupam. Então aparecem esses malditos com burgueses perfeitos que são criminosos por prazer. Com suicídios horrendos e a dificuldade de lidar com eles. Com peças em que um bebê morre e, diante da fome, é devorado pelos adultos que o cercam. E o pior é que tudo isso não acontece num gueto, nem com algum maluco que tenha sido violentado quando criança: acontecem “sem explicação”, com gente “normal”.



Encarar esse tipo de escritor exige mais do que tempo e dinheiro: exige culhões. A entrega a eles, embora seja dolorosa, não é a contraparte de uma promessa de diversão nem de alívio. Não há investimento em nós mesmos e nem aplicabilidade. O que há, sim, é um tipo de vergonha misturado com uma sensação estranha de pertença ao mundo. Ao tocar temas que tentamos negar serem nossos também, esses homens não confortam; confrontam. E nós, leitores, também nos confrontamos, hábito tão démodé nesses dias. Coragem, dizemo-nos, coragem, e abra esse livro.



Talvez essa seja uma das poucas formas de entrarmos em contato justamente com o que escapa aos nossos conselheiros: aquilo que não confessamos. As coisas que nos fazem corar, e que no fundo são o que nos rege. As paixões para além da literatura, que só a Literatura toca. O motivo de mais profundo embaraço de cada leitor e de cada ser humano: aquilo que ele é de fato. Afinal, o que nos deveria dar vergonha não são os livros de Sade, Bolaño e Hilda Hilst (que ninguém sabe quem são de qualquer forma), e sim as revistas disponíveis à porta dos dentistas e dos médicos.