terça-feira, 29 de abril de 2014

Jesus e Genésio

A internet anda confusa. Pudera: o fluxo cada vez mais frenético de informações cada vez mais superficiais, inverificáveis e repassadas aleatoriamente não poderia dar em outra coisa. "Compartilhei por que achei bonitinha a roupa que ela está usando na entrevista, embora ela fale um monte de besteira"; "Achei o trocadilho divertido". Algum dos meus amigos (perdão, Vinícius, acho que foi você ou o Alex, mas não tenho certeza) disse, nesse fim de semana, que quando alguém recorre à liberdade de expressão para justificar a validade do que disse, é por que falta qualquer outro argumento que valide o conteúdo ali expresso. Vaidade das vaidades: alguém, em algum momento, teve a brilhante ideia de louvar aqueles que "falam tudo o que pensam", como se pensar antes de falar ou se resguardar a ouvir fosse algum crime, ou se como toda opinião fosse válida, apenas por ser opinião. Fico com uma das frases de vovó: nascemos com dois ouvidos e uma boca, então temos a obrigação de ouvir mais do que falar. Liberdade de expressão, enquanto assunto público, é essencial; liberdade de expressão enquanto justificativa privada por um comentário infeliz, essa é horrorosa. Quanto mais palavras e informações circulam, menos claras as mensagens ficam. Movimentadas e turvas, as águas se tornam um material quase que opaco, de visibilidade limitada. Acalmadas e serenas, são lúcidas.

Tentemos, pois, acalmar um pouquinho as águas. Para um moleque (peço perdão ao alunos que lerem esse texto, pela repetição) que decide deixar a casa, a família, e jogar futebol, a decisão não é nada, nada fácil. Encarar tal responsabilidade, com medo constante de uma lesão que possa, em uma fase determinante, encerrar um sonho, é coisa para adulto. Parte desses adultos, com dezesseis, dezessete anos, é convidado para se mudar para algum país da Europa, onde deverá ser recebido por uma grande e fanática torcida, por companheiros de clube que admirará, e onde, ainda que no início não o sinta, se adaptará com facilidade. São as portas de um sonho se abrindo, tão importantes como a primeira iniciação científica, o cargo de importância na empresa júnior, o primeiro contrato fechado ou o favor (merecido) de um Professor Doutor ou Diretor Executivo. Sonho que pode adquirir contornos de pesadelo.

A torcida pode não ser tão calorosa; a língua pode parecer hostil, e as placas, incompreensíveis. Mas no momento em que a língua se torna um pouco mais clara, as torcidas (a sua e a adversária) é que se tornam hostis; sua atitude, incompreensível. Há também o recurso às linguagens universais: a genialidade e a imbecilidade, se têm algo em comum, é o fato de quase sempre conseguirem atravessar barreiras linguísticas como se essas simplesmente não existissem. E dentre as imbecilidades (ou devo dizer, bestialidades), talvez o racismo seja uma das mais violentas, incompreensíveis e absurdas. (Outras: o machismo, a intolerância religiosa, a homofobia.) O racismo, para tais garotos, ou, na linguagem da bola, para os moleques, pode se tornar uma barreira. Desprotegidos em muitos aspectos, num país estrangeiro, longe de amigos e de parte da família, o poder intimidador de atos de racismo pode ser o determinante para a desestabilização. Torcidas fanáticas tendem a atrair ou abrigar, por vezes, torcedores agressivos que, em acessos de irracionalidade lamentavelmente comuns, protagonizam violências ou perseguições a atletas. Um sonho que exige muito investimento (de dinheiro, de tempo, de vontade) pode, assim, vir a ser interrompido por conta de uma estupidez sem tamanho: o racismo. E para esses moleques, isso significa dar cinco passos para trás, desistir da faculdade no fim, abandonar a empresa antes daquela promoção. Significa voltar à estaca zero. E o pior: não por que ele tenha cometido uma falha, mas porque o mundo parece imbecil demais, mas tão imbecil, a ponto de oferecer sessões de humilhação gratuitas. Um padeiro que se recuse a atender alguém por seu sotaque; um transeunte que se recuse, pela cor da pele de outro, a parar para ouvi-lo; uma banana atirada no campo.

Nos últimos dias, chegou ao status de viral a atitude do jogador brasileiro Daniel Alves, do Barcelona (cuja torcida já havia recebido jogadores com ofensas racistas há alguns dias - veja aqui http://esportes.terra.com.br/futebol/internacional/espanha/campeonato-espanhol/retorno-do-barca-tem-racismo-a-neymar-e-time-sem-vergonha,0bfe16c8afa55410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html ), de pegar uma banana que havia sido atirada em sua direção e, em pouco menos de seis segundos, descascá-la, comê-la e dar prosseguimento ao jogo. A atitude não foi radical como a de Kevin Prince Boateng, que abandonou uma partida, ou a de Yayá Touré, que falou em um boicote de jogadores negros à Copa do Mundo de 2018,  na Rússia. E Daniel Alves não é um craque.... 

(para os alunos de literatura, esse aqui é um exemplo de digressão!) 

Mas antes de prosseguir, quero falar sobre o que é um craque... Um craque é alguém que, vestindo uma certa camisa, seja ela de seleção ou de clube, consegue, num espaço limitado, com tempo limitado e num instante exato, realizar uma jogada que se grava, para sempre, na memória do torcedor. Aquele momento deixa de pertencer ao homem que o protagonizou, e passa a pertencer a uma torcida, a cada torcedor. In our minds... Forever, diz o personagem torcedor do Manchester United no filme de Ken Loach com Eric Cantona. Algo semelhante ao que faz um poeta com um verso, um romancista com uma cena ou frase, um diretor com uma cena de um filme. In our minds forever, como algo muito maior que simplesmente aquele momento. Uma prova de que a beleza existe, de que a humanidade é capaz de produzi-la, de alcançá-la, e de unir desconhecidos, independente de cor de pele, religião, país de origem, etnia, em uma coisa só. ( https://www.youtube.com/watch?v=UaRi-79yRw4 ) Um grito, um suspiro, uma impossibilidade de falar, um choro reprimido. Isso é um craque: e esse momento é o que temos contra a feiúra do mundo, contra os inúmeros momentos em que a vontade é de parar, de desistir. De largar a faculdade no quinto ano, de desistir do emprego antes da promoção, de dar cinco passos para trás...

... e foi aí que Daniel Alves se tornou um craque. Em seis segundos, em torno da bandeirinha de escanteio, ele transformou a banana que lhe foi atirada, ofensa racista e imbecil, em simples fruta. Em algo que, para além de si, se tornou, ali, naquele momento, insignificante, incapaz de pará-lo. Incapaz de desestabilizá-lo, de fazê-lo desistir. Daniel reduziu o racismo, naquele momento, à insignificância a que deveria ter sido reduzido há muito tempo: o papel de simples imbecilidade de algum indivíduo cuja visão do mundo é muito distorcida. Usado como arma, o racismo deveria ser insignificante, e Daniel o fez ser insignificante: contra o sonho de jogar em um grande clube, contra a vontade de vencer, contra aquilo que significa ser jogador de futebol para alguém que quer ser jogador de futebol, a ofensa não significou absolutamente nada. É incapaz de pará-lo, de desestabilizá-lo, de atingi-lo. E aquele momento, senhores, ficará nas mentes desses garotos para sempre, como está na minha, inesquecível. Um bom admirador de futebol, assim como alguém sensível para a arte, sabe quando está diante de uma obra prima. Daniel foi autor de uma obra prima, e deve ser louvado. Muito louvado. Seu ato não foi a solução do problema, como um bom verso não é a salvação do mundo. Ambos, no entanto, tornam o problema e o mundo (fundidos, os dois, no mesmo impasse) um pouco menos asfixiantes.

Até que comece a confusão na internet. Caronistas e hashtags não são o ato de Daniel, mas consequência dele. Confundi-los seria como atribuir os crimes de Charles Manson aos Beatles, cuja canção, Helter Skelter, era, segundo o serial killer, inspiração para matar. O status de viral aparece, em parte, por conta do apoio prestado pelo companheiro Neymar (vide a primeira notícia que linkei ao texto) na forma de uma foto com uma banana. Neymar é menina dos olhos da publicidade, assessorado em tudo o que faz, e discutir a natureza de seu envolvimento e em que ponto termina a solidariedade e começa a promoção é entrar em florestas densas demais para o momento. O que interessa é: Neymar é jogador de futebol, vítima de racismo, e, no contexto, a foto fazia sentido pleno. Era apoio e solidariedade. O que não faz sentido são os caronistas: os milhares de pessoas que, ao mesmo tempo em que defendem o ato de Daniel, são a favor da elitização dos estádios de futebol, e defendem, dia a dia, a segregação em cujo cerne estão a discriminação e o racismo. Globais, globalizados ou globobos, não importa; louros morenos, carecas, cabeludos, como na cantiga de corda, também não importa. O que importa é a incoerência das atitudes, e o quanto o senso de oportunidade precede a reflexão. A décima terceira selfie da semana, a maneira de promover a nova peça de teatro... Tudo isso precede a reflexão de quem está sendo excluído do esporte pelo novo padrão "fifa" dos estádios, qual o espaço de convivência democrático que reúne todas as classes sociais, credos, cores de pele. No trecho do filme de Ken Loach que postei acima, o carteiro Eric _ amigo, de repente, do craque Eric Cantona _ se queixa da falta que sente de ir aos estádios. É a pasteurização do grito de gol, ou como diz Lúcio de Castro, o processo de Eugenização do futebol brasileiro. O futebol, espelho da sociedade, poderia aqui comentar rolezinhos, rolezões ou rolexes. Mas também a discussão sobre o futebol foi ocupada pela discussão sobre a camisa, a namorada e o comportamento fora de campo do jogador e do treinador. Triste momento, do qual nos consolam quem? Eles, os craques, e seus lances mágicos, artistas da bola que mantém viva a chama da paixão pelo esporte. E pela humanidade.

Não sem tempo: o Villareal identificou o atirador de bananas e o baniu de seu estádio. Privado do espetáculo, que vá aprontar em outra freguesia, e que esteja fichado, na polícia, passível de processo e punição. Cada instituição fazendo aquilo que lhe cabe, e com plena consciência do quanto isso afeta a outra. Aí, talvez, esteja um caminho para, de fato, atacar o problema.

Obrigado, Dani Alves. Não somos todos você não; você é craque.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Dois sonetos

Frutos de um feriado dedicado a duas leituras políticas, a de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, e a de O Conceito do Político, de Carl Schmitt, me apareceram esses dois sonetinhos. São tentativas iniciais de trabalhar com a forma soneto (ou como diz Jorge Luis Borges, de treinar a mão), e também são alfinetadinhas carinhosas nos amigos que sempre me ensinam, cada vez mais, o que é a política. Digo, nas redes sociais, que não devem ser levados a sério; aqui, não preciso dizê-lo. Alguém já levou alguma coisa escrita nesse blog a sério? Porque se levou... Baby, you got it all wrong. ;)

Soneto Maquiavélico

Temente apenas à sua própria mão
E justo quando há olhares ao redor
Prudente em ter a lâmina maior
que o código de leis de seu bolsão.

Por outros nobres tido como irmão,
Por saber nomes e brasões de cor,
Defende-se de seu berço menor
E é de berços menores campeão.

Não outorgou-lhe o sangue, mas a espada
o mando do que chama hoje de lar,
lar onde a gente canta governada.

Veio a mão dum tirano decepar
E ao tê-la no castelo pendurada
Se faz temer ainda mais que amar.


Soneto Schmittiano

Não cabe a mim dizer se é belo ou feio,
De um ato, se é bondosa a natureza,
Se é lucrativa ou onerosa a empresa;
São tais distinções inútil rodeio.

Digo aos que ainda me julgam com receio,
que a guerra, para mim, não tem beleza,
não traz dinheiro ou bem, mas é coesa,
e a coesão reside no seu seio.

Se falo em definir os inimigos
Não é pensando em quem vou destruir,
E sim de modo a organizar perigos.

Política, em essência, é definir
a quem não cabem mais quaisquer castigos
a não ser o de cessar de existir.

sábado, 8 de março de 2014

Pequeno episódio sobre um sultão

Sentado em sua cama mas em trajes reais, o sultão observa o movimento de uma borboleta azul. Atento aos seus movimentos, ele pensa em palavras para defini-lo: desenho, acrobacia, dança.
Seu grão-vizir, apavorado, o interrompe em seu ato de contemplação, abrindo a porta do quarto:
_Majestade, todos no palácio estão apavorados com a sua ausência.
O sultão não responde. Ainda não se acostumou às intromissões do velho vizir.
_Majestade, devo alertá-lo sobre a tradição que vosso avô e vosso pai cumpriram, e que deverá ser cumprida por vossa Majestade...
_... de que em todo aniversário o sultão deve comparecer diante de seu povo e celebrar uma festa, oferecendo ao povo uma demonstração de seu poder ou de sua sabedoria. Sim, obrigado. Agora, tenha a bondade de se retirar.
Já velho e cansado, o vizir se questionava sobre a real possibilidade de transformar aquele rapaz em um sultão à altura do pai. Parecia, nos últimos oito meses, ter apenas aprendido a veemência do comando.
Quebrada a concentração, ausente a admiração, a borboleta pareceu voar da mesma maneira, como alguém que se move simplesmente.
O vizir ordenou, a partir de sua experiência, que os preparativos da festa continuassem. Com vontade ou sem vontade, aquele moleque cumpriria a obrigação de sultão. Tudo precisava ser perfeito, e o vizir, com uma rispidez distante de seu habitual tratamento cortês dos súditos, comandava e fiscalizava cada tarefa singular.
Enquanto esbravejava com uma moça e um rapaz que tinham cometido erros grosseiros (ele, salgado demais um molho; ela, lascado uma taça por batê-la forte demais contra uma mesa), o vizir recebeu a ordem de ir ao encontro do sultão. Enfim, o moleque exigiria sua preparação especial para a festa! Enfim, as ordens chegariam, anunciando excentricidades no cardápio, nas cores e nas atrações! Enfim, o vizir conseguiria arrancar um momento de realeza do rapaz.
Chegando ao quarto, no entanto, encontrou o sultão contemplando um grilo com o mesmo afinco com que contemplava a borboleta.
_Meu caro vizir, sua dedicação é exemplar. Sua voz se faz ouvir enquanto você esbraveja com os súditos. A vibração de seus passos enérgicos invade meu quarto, e se faz sentir nos dosséis da minha cama. E embora eu não possa vê-lo com a porta fechada, sinto seu indicador apontando detalhes, falhar, correções.
_Muito obrigado, Majestade. O dia de hoje é um dia importante e especial, e vossa majestade precisa estar preparado e adequadamente ambientado.
_Vê, meu caro amigo e mestre e conselheiro, que é exatamente aí que você se engana? Hoje é um dia em que contemplar o grilo ou a borboleta deve consistir em contemplar o grilo ou a borboleta. Eu tentava, em vão, encontrar uma palavra que definisse aquilo que eu contemplava alguns minutos atrás. Pensei, por um momento, que aquele voo fosse uma espécie de presente de aniversário. E no entanto, não há aniversário. Hoje a borboleta voa como sempre voou, olhe-a eu ou não. Se em um único dia julgo que os saltos do grilo são maravilhosos, e que o voo da borboleta é maravilhoso, e que são dignos de meus olhos reais e de minha presença real, então todos os dias devo dar a eles meus olhos reais e minha presença real. Compreende, meu amigo?
_Compreendo, majestade. Devo, então, povoar nossa festa de grilhos e borboletas, e manter alguns no palácio para que vossa majestade possa vê-los em cada dia?
_Não, meu caro amigo. Deves olhar o grilo, que salta como um sultão, e a borboleta, que voa como um sultão, com olhos de sultão.
_Mas apenas vossa majestade tem olhos de sultão.
_Nem mesmo você está convencido de que eu tenha olhos e mãos de sultão, meu bom amigo. Ou uma voz de sultão, ou pensamentos de sultão. Você, o palácio, os olhares em volta, são quem opta por fazer-me sultão todos os dias. E você, eu, os olhares em volta, somos quem opta por fazer súditos dos súditos todos os dias.
E o vizir, então, compreendeu o que era terrível, e que aquele homem jamais seria, de fato, um sultão como seus ancestrais.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Fake, fake, fake...

Você, torcedor são paulino que desistiu ontem, que largou o jogo no meio, e que soltou a frase "já tá perdido" ou qualquer variante dela,

você não é um torcedor de verdade. Você é um desses acostumadinhos a tricampeonatos, a comemorações confortáveis e a trocar os jogos importantes do seu time por noites de raiva e de tédio no facebook. Você sabe o nome dos jogadores porque gosta de xingá-los. Não interessa se você vai ao estádio quando pode ou se vê do sofá, ou se acompanha pela internet: esteja onde estiver, você não é um torcedor. Você não sofreu por amor quando seu time estava ameaçado de rebaixamento: sofreu por vergonha. Você não disse pros seus amigos, com convicção, que seu time não iria cair; você fugiu deles. A cada derrota, você largou seu time no meio. A cada jogo ruim, você largou seu time no meio. Você não é um torcedor.
Aprenda com os torcedores da ponte preta, que gritam, cantam e acreditam depois de tomar um gol. Que acreditam no que todos os outros dizem para eles ser impossível, por amor e por fé. Aprenda a conhecer a história do seu clube, a saber que, antes de ser o time mais vitorioso do Brasil, como você gosta tanto de dizer, ele deveria ser o SEU TIME. Aprenda o significado da frase: ESSE É O TIME ONDE A MOEDA CAI EM PÉ.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rogério Sêneca?



Amanhã, a imprensa distorcerá o que Rogério Ceni disse ao sair de campo. O ídolo são-paulino, pressionado por duas perguntas seguidas sobre sua suposta aposentadoria, deu uma declaração sobre o clube em que trabalha. O teor da declaração será esquecido; a frase marcante, lembrada. “Dá para assinar contrato em branco”, disse o goleiro. Antes, fez filosofia sobre o tempo, o acúmulo de marcas e conquistas na vida, e a impossibilidade de se comparar gênios a’O Gênio (no caso, Rogério Ceni a Pelé, mas a frase poderia ser aplicável a Jonathan Litell e Liev Tolstoi). Não é a filosofia que será lembrada amanhã. Amanhã, uma frase será notícia, espremida entre as palavras de uma redação.

Parte da imprensa fará o que faz todos os dias: escolherá um recorte que se encaixe naquilo que quer e precisa, pelos motivos que for, dizer. Quando encontrar aquilo de que precisa, comemorará não como quem comemora um gol, com paixão e emoção pura, e sim como o torcedor cínico que, com um sorriso amarelo, comenta com um cúmplice a desclassificação do rival. O sentimento não será o de dever cumprido, mas o de ter tomado sua pequena parte na ração diária de erro sobre a qual nos fala Drummond. A vida seguirá seu fluxo, o tempo sua marcha, e as marcas, seu acúmulo.

Rogério não será a única vítima da imprensa. Jogadores e dirigentes de muitas outras agremiações terão o mesmo tratamento. Políticos terão o mesmo tratamento. Jovens entrevistados nas ruas, acidentes de automóvel, a morte de cantores; tudo terá o mesmo tratamento. Em algum lugar, quase sempre com público menor, outra parte da imprensa levantará sua voz e tentará fazer jus às palavras de um goleiro, de uma mãe ou de uma massa. Todos os dias, no entanto, o embate se dará não entre os órgãos que buscam a informação e aqueles que a aproveitam, mas sim entre a verdade e a vontade de falsificação.

O futebol não é um reino mágico: está intimamente ligado à sociedade. A ele estão associados grandes capitais, a imprensa, multidões, paixão, simbologia... A lista de cordões que o ligam à sociedade é imensa. Os jogadores de futebol podem ser símbolos de alienação e de desprezo, ou de rebeldia e consciência política. Como os artistas, os atores de cinema, os cantores e os padeiros. Não entrarei no mérito eterno de que futebol não é, necessariamente, alienação. Ficarei com o inegável: sendo fruto e parte integrante de uma sociedade complexa, não pode ser visto como simples brincadeira.

O futebol tem, no entanto, uma particularidade: talvez pela paixão, talvez pela exposição, talvez pelo volume de dinheiro que por seus centros circula, tudo está nele como que focado por uma lente de aumento. As palavras de um jogador são ouvidas e repetidas com mais constância que as de muitos líderes de oposição; são discutidas à exaustão por especialistas da informação e por especialistas da cerveja e do amendoim salgado. Se tudo ganha eco e se amplifica, deveríamos ser mais capazes de ver, nesse mundo, o que o repórter investigativo (e não um repórter esportivo) foi capaz de observar. Falo de Andrew Jennings, autor de dois livros sobre a corrupção em universos distintos: a Igreja Católica e o futebol. Vaticano e FIFA. Jennings diz que foi muito mais fácil investigar o último: afinal, a soberba de seus condutores (de seus Berlusconis) não lhes permitia que escondessem rastros e pegadas. Entre as quatro linhas, tudo estava mais às claras que entre as quatro paredes sagradas.

Mas do que mesmo eu falava? Ah, sim: amanhã, distorcerão as palavras de Rogério Ceni. Retirarão de contexto seu elogio à estrutura de seu clube. Rogério dizia que nunca pediu um adiantamento ao clube, e que nunca recebeu um salário atrasado. Dizia que dispunha de toda a estrutura que queria. E que com um clube assim, não havia questões de negociação para um eventual contrato: era possível assinar um contrato em branco. Afinal, a confiança, depois de anos de trabalho, é total e absoluta. “Dá para assinar contrato em branco”. Amanhã dirão, somente, que Rogério disse, numa entrevista sobre sua aposentadoria, que “Dá para assinar contrato em branco” com o São Paulo. A filosofia, por valiosa que fosse, será deixada de lado. E um pequeno desvio fará mágica. A mesma mágica que, todos os dias, é feita em todas as sessões de muitos dos jornais, dos programas de tevê e das emissões de rádio. A mesma mágica que foi feita hoje e ontem.

domingo, 20 de outubro de 2013

Reorganizações

Se tenho saudades de algo, é do dia em que, tendo já comprado "Estorvo", de Chico Buarque, me sobrara quase a metade de um vale presente da livraria saraiva, e, indeciso, resolvi escolher um outro livro. Passei os olhos por algumas estantes, mas, sendo estudante do terceiro ano do colegial, me faltava repertório: é comum, nessa época, adquirirmos os livros de que nossos amigos gostam, ter muito receio com aqueles que nossos pais recomendam e ter medo daqueles que os professores de literatura dizem ser os melhores.

Em algum momento, tentava me lembrar de alguma recomendação, enquanto meus olhos, vagabundos, escalavam as letras deitadas dos títulos sem que meu pescoço se flexionasse. E quando minha memória me incomodava, por se recusar a trabalhar, a de um elefante é que se apresentou. Eu lera (claro!) no jornal, alguns dias atrás, uma matéria sobre António Lobo Antunes, de quem nada conhecia. O livro era curto e, além disso, quase não excedia o valor do vale. Coincidências financeiras. Achara meu segundo livro e, em breve, estaria lendo Chico Buarque, cujo show eu veria em algumas semanas, se conseguisse o ingresso que desesperadamente procurava.

No caminho para casa, a orelha do livro me fizera sentir um frio na barriga: será que é esse, e não “Estorvo”, o livro que lerei à noite? Sei que gosto do tal do Chico, desse carioca dos olhos azuis e de voz de coitadinho que precisa de amparo (e a quem metade das mulheres do país parece querer amparar); por que não, então, dar uma  chance para o tal Lobo Antunes, a despeito de ele ter metido a boca em José Saramago? Guerra de Angola, desmanche do Império Colonial Português... Abri o livro.

O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de paste de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:

Assim escrito, foi assim que li: de um gole só, rápido, pensando “car...”. E antes que eu pudesse concluir o pensamento, as próximas frases se engatavam. Aparentemente, eu não tinha comprado um livro, mas um feitiço que, uma vez lido, me transportaria não para outra dimensão, e sim para dentro da mente de alguém. Ter aprendido o que era um fluxo de consciência foi o equivalente, na minha vida, a ser abduzido. Há quem diga que sem as luzes, os instrumentos afiados e a sabedoria milenar, mas não: havia luzes quando as armas disparavam nas noites angolanas, facas perfuravam a carne de soldados, para salvá-los da morte ou da guerra; e a sabedoria milenar, meu Deus, ela tinha que existir em algum lugar. De novo o palavrão se formava em minha mente. Antes que eu pudesse terminá-lo, bati o livro.

Li Memória de Elefante em dois dias e duas tacadas: a primeira, entre a chegada em casa, às nove e meia da noite, e as quatro da manhã. A segunda, entre as oito da manhã e o meio-dia. Um ano depois, já estudante de literatura, leria Os Cus de Judas. E igualmente me apaixonaria por suas primeiras palavras, que cito de cor a quem me perguntar na rua: “Do que eu mais gostava no Jardim Zoológico era o rinque de patinagem...”. Anos depois, morando em Essen, na Alemanha, eu finalmente patinaria – no gelo – e a primeira coisa em que pensaria, antes do frio ou das excelentes companhias, era no livro.

Se tenho saudades de algo, é da fúria com que devorei Memória de Elefante, do modo como imediatamente, ao conhecer Lobo Antunes, tive que alterar o tamanho de todos os outros escritores que moravam no meu parco repertório. Troquei cadeiras, removi presentes, redistribuí os louros. E como um tirano que encontra uma nova amante, festejei uma nova divindade no meu panteão. Do vinho dessas festas é que tenho mais saudades.


Li, eventualmente, Estorvo. E graças a uma vizinha maravilhosa, fui ao show do Chico. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Trecho



Olhei os navios; nada. Era como se eles não tivessem existido nunca, embora estivessem ali. Eu os olhava, sabia que os olhava, mas nada vinha à minha cabeça, nenhum tipo de atitude me tomava. Eram oito, e embora estivessem no horizonte, se aproximavam a uma velocidade assustadora. Não havia gaivotas, peixes ou qualquer tipo de animal. Em outros tempos, eu teria intuído um golfinho; agora, via a movimentação em linha reta daqueles animais de ferro, chaminés e cargas. Como se percebessem de chofre minha ataraxia, frearam imediatamente, pararam, e por três segundos que talvez tenham sido vinte, pareceram boiar, simplesmente. Não havia qualquer tipo de neblina ou impedimento, e o céu era claro, azul. Não havia qualquer tipo de controle: estavam ao léu, sob o sol, e era ali, aquele movimento aleatório das ondas, o seu habitat natural. E então, todo movimento cessou. Como se o mar se congelasse, ou se fizesse calmo por intervenção divina, os navios pareceram atracados, sem indício qualquer de âncora. Permaneceram nesse ínterim por cinco minutos, estes contados (não sei explicar por que, mas no momento exato em que os percebi parados, comecei a contar, chegando ao número trezentos).
Trezentos. E, mais uma vez num golpe brusco, teve início uma dança sobre as águas, que não só pareceu movimentá-las de modo caótico, mas criar uma espécie de sinal ou ritual para abertura de um portal. Enquanto trocavam de posição, eu os observava e, pela primeira vez, percebia que fazia um esforço para compreendê-los. Até então, tudo era para mim observação, e apenas isso; o uso da visão e mais nada. Conforme mudavam de direção e assumiam diferentes velocidades e potências, pensei que pudesse haver algo. Mas como um grupo de jogadores de futebol americano depois de se reunir para combinar a estratégia, cada um dos navios seguiu para um lado, uns mais próximos, outros mais distantes. Sete deles ganharam o mar (lembro-me de tê-los contado em voz alta), e um veio em direção à ilha atrás de mim. Minhas braçadas e pernadas automáticas deram lugar a uma série de movimentos coordenados que, sem pensar, eu fazia para me posicionar, como por instinto, num determinado lugar, sabendo que seria aquele onde as ondas produzidas pela aproximação do cargueiro que restara.
A onda me pega. Pega e leva diretamente para a ilha, como uma mão, pousando-me sobre a areia branca. Nesse momento ainda não penso: embora tenha dito palavras, tenha tido impressões, não penso. Minha mente está vazia como em um ato de meditação, e sei que meus movimentos, embora precisos como os de um relógio, não são calculados. Fui entregue.
O navio está atracado. Não sei quanto tempo se passou desde que cheguei à areia. Olho em frente: Entre as palmeiras um coco (o cenário me parece familiar), o sal deve ter me carcomido de algum modo, a luz do sol – um vento – os tremores, a trégua (Japão) tudo aqui é tão limpo – um cheiro; A casa de verão, minha mãe, um amigo, a ilha, o capitão sai de dentro do navio. Sei que, de lá, ele me olhava.
            Talvez com rancor.