domingo, 20 de outubro de 2013

Reorganizações

Se tenho saudades de algo, é do dia em que, tendo já comprado "Estorvo", de Chico Buarque, me sobrara quase a metade de um vale presente da livraria saraiva, e, indeciso, resolvi escolher um outro livro. Passei os olhos por algumas estantes, mas, sendo estudante do terceiro ano do colegial, me faltava repertório: é comum, nessa época, adquirirmos os livros de que nossos amigos gostam, ter muito receio com aqueles que nossos pais recomendam e ter medo daqueles que os professores de literatura dizem ser os melhores.

Em algum momento, tentava me lembrar de alguma recomendação, enquanto meus olhos, vagabundos, escalavam as letras deitadas dos títulos sem que meu pescoço se flexionasse. E quando minha memória me incomodava, por se recusar a trabalhar, a de um elefante é que se apresentou. Eu lera (claro!) no jornal, alguns dias atrás, uma matéria sobre António Lobo Antunes, de quem nada conhecia. O livro era curto e, além disso, quase não excedia o valor do vale. Coincidências financeiras. Achara meu segundo livro e, em breve, estaria lendo Chico Buarque, cujo show eu veria em algumas semanas, se conseguisse o ingresso que desesperadamente procurava.

No caminho para casa, a orelha do livro me fizera sentir um frio na barriga: será que é esse, e não “Estorvo”, o livro que lerei à noite? Sei que gosto do tal do Chico, desse carioca dos olhos azuis e de voz de coitadinho que precisa de amparo (e a quem metade das mulheres do país parece querer amparar); por que não, então, dar uma  chance para o tal Lobo Antunes, a despeito de ele ter metido a boca em José Saramago? Guerra de Angola, desmanche do Império Colonial Português... Abri o livro.

O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de paste de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:

Assim escrito, foi assim que li: de um gole só, rápido, pensando “car...”. E antes que eu pudesse concluir o pensamento, as próximas frases se engatavam. Aparentemente, eu não tinha comprado um livro, mas um feitiço que, uma vez lido, me transportaria não para outra dimensão, e sim para dentro da mente de alguém. Ter aprendido o que era um fluxo de consciência foi o equivalente, na minha vida, a ser abduzido. Há quem diga que sem as luzes, os instrumentos afiados e a sabedoria milenar, mas não: havia luzes quando as armas disparavam nas noites angolanas, facas perfuravam a carne de soldados, para salvá-los da morte ou da guerra; e a sabedoria milenar, meu Deus, ela tinha que existir em algum lugar. De novo o palavrão se formava em minha mente. Antes que eu pudesse terminá-lo, bati o livro.

Li Memória de Elefante em dois dias e duas tacadas: a primeira, entre a chegada em casa, às nove e meia da noite, e as quatro da manhã. A segunda, entre as oito da manhã e o meio-dia. Um ano depois, já estudante de literatura, leria Os Cus de Judas. E igualmente me apaixonaria por suas primeiras palavras, que cito de cor a quem me perguntar na rua: “Do que eu mais gostava no Jardim Zoológico era o rinque de patinagem...”. Anos depois, morando em Essen, na Alemanha, eu finalmente patinaria – no gelo – e a primeira coisa em que pensaria, antes do frio ou das excelentes companhias, era no livro.

Se tenho saudades de algo, é da fúria com que devorei Memória de Elefante, do modo como imediatamente, ao conhecer Lobo Antunes, tive que alterar o tamanho de todos os outros escritores que moravam no meu parco repertório. Troquei cadeiras, removi presentes, redistribuí os louros. E como um tirano que encontra uma nova amante, festejei uma nova divindade no meu panteão. Do vinho dessas festas é que tenho mais saudades.


Li, eventualmente, Estorvo. E graças a uma vizinha maravilhosa, fui ao show do Chico. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Trecho



Olhei os navios; nada. Era como se eles não tivessem existido nunca, embora estivessem ali. Eu os olhava, sabia que os olhava, mas nada vinha à minha cabeça, nenhum tipo de atitude me tomava. Eram oito, e embora estivessem no horizonte, se aproximavam a uma velocidade assustadora. Não havia gaivotas, peixes ou qualquer tipo de animal. Em outros tempos, eu teria intuído um golfinho; agora, via a movimentação em linha reta daqueles animais de ferro, chaminés e cargas. Como se percebessem de chofre minha ataraxia, frearam imediatamente, pararam, e por três segundos que talvez tenham sido vinte, pareceram boiar, simplesmente. Não havia qualquer tipo de neblina ou impedimento, e o céu era claro, azul. Não havia qualquer tipo de controle: estavam ao léu, sob o sol, e era ali, aquele movimento aleatório das ondas, o seu habitat natural. E então, todo movimento cessou. Como se o mar se congelasse, ou se fizesse calmo por intervenção divina, os navios pareceram atracados, sem indício qualquer de âncora. Permaneceram nesse ínterim por cinco minutos, estes contados (não sei explicar por que, mas no momento exato em que os percebi parados, comecei a contar, chegando ao número trezentos).
Trezentos. E, mais uma vez num golpe brusco, teve início uma dança sobre as águas, que não só pareceu movimentá-las de modo caótico, mas criar uma espécie de sinal ou ritual para abertura de um portal. Enquanto trocavam de posição, eu os observava e, pela primeira vez, percebia que fazia um esforço para compreendê-los. Até então, tudo era para mim observação, e apenas isso; o uso da visão e mais nada. Conforme mudavam de direção e assumiam diferentes velocidades e potências, pensei que pudesse haver algo. Mas como um grupo de jogadores de futebol americano depois de se reunir para combinar a estratégia, cada um dos navios seguiu para um lado, uns mais próximos, outros mais distantes. Sete deles ganharam o mar (lembro-me de tê-los contado em voz alta), e um veio em direção à ilha atrás de mim. Minhas braçadas e pernadas automáticas deram lugar a uma série de movimentos coordenados que, sem pensar, eu fazia para me posicionar, como por instinto, num determinado lugar, sabendo que seria aquele onde as ondas produzidas pela aproximação do cargueiro que restara.
A onda me pega. Pega e leva diretamente para a ilha, como uma mão, pousando-me sobre a areia branca. Nesse momento ainda não penso: embora tenha dito palavras, tenha tido impressões, não penso. Minha mente está vazia como em um ato de meditação, e sei que meus movimentos, embora precisos como os de um relógio, não são calculados. Fui entregue.
O navio está atracado. Não sei quanto tempo se passou desde que cheguei à areia. Olho em frente: Entre as palmeiras um coco (o cenário me parece familiar), o sal deve ter me carcomido de algum modo, a luz do sol – um vento – os tremores, a trégua (Japão) tudo aqui é tão limpo – um cheiro; A casa de verão, minha mãe, um amigo, a ilha, o capitão sai de dentro do navio. Sei que, de lá, ele me olhava.
            Talvez com rancor.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Manifesto imaginário diante de um caso não imaginário

(Supostamente escrito pelo capitão Bloch-Rochelle, em torno do ano de 1900, e encontrado entre seus arquivos pessoais).


Não há engodo em pensar, meus senhores e senhoras da grande França. Engodo algum. O engodo está justamente no não-pensar, no utilizar a mente para qualquer outro propósito que seja o de não-pensar. Ou antes, devo me corrigir, no utilizá-la para um propósito que seja o de não-pensar diante de outros, de outras. Diante do próximo, do distante, do estrangeiro ou do patrício.

Alguns nos têm acusado, com bastante veemência, de nos postarmos contra a nação francesa quando defendemos que um preconceito não deve guiar um julgamento. Dizem que prejudicamos a unidade nacional, que o país está desmoralizado em virtude das recentes crises, e que nossa ação, que se guia por uma “petulância de academia”, é um atentado à cultura.

A cultura, meus senhores e senhoras, é mais que um mero verniz, que o toque final da glória e da beleza de uma nação ou de um povo. A cultura não serve como objeto de exibição (embora tenha servido), como atestado de posição social (embora venha servindo) ou como uma pequena jóia adquirida a custo de muita economia visando algum tipo de auto-afirmação (embora, ultimamente, a metáfora tenha sido muito precisa na descrição do que se têm feito da mesma cultura).

A cultura, meus senhores e senhoras, é muito mais que o tal verniz; é um processo através do qual o homem, imerso em sensações que não pode compreender completamente, é forçado a utilizar a faculdade do pensar. Ainda que saiba que as obras de arte, que os objetos de cultura, não apelam exatamente a esta faculdade.

Alguns, perigosamente, crêem que associar a cultura e o pensar é um equívoco. O equívoco é não fazer a associação, por mais dolorosa que ela seja. A faculdade do pensar, meus senhores, não diz respeito (que perdoem-me os meus rigorosos colegas da filosofia e da lógica, que me têm sido tão amáveis, por me intrometer em seu domínio) única e exclusivamente à ordenação de categorias, à classificação, à transformação das coisas ao molde da mente pensante. A provocação da cultura, a grande provocação, é justamente jogar com esse molde. É transformá-lo, é quebrá-lo e vê-lo se reerguer de diversas formar.

A cultura, meus senhores e senhoras, nos atrapalha muito em nossas convicções e julgamentos. Coloca-os na berlinda. Assim, é impossível acessar a cultura tomado de conceitos estabelecidos antes do ato. Para acessá-la corretamente, para poder entrar em seus salões e beber de seu néctar, é necessário deixar as convicções do lado de fora da porta. Com isso, não quero dizer que o homem ou a mulher que acessa a cultura está sem convicções. Se elas forem suficientemente sólidas, suficientemente embasadas, persistirão, e ganharão força. Mas apenas ganharão força se forem questionadas. Levar, para um julgamento como o do caso Dreyfus, que passo a chamar aqui o caso Dreyfus-Zola, as concepções prévias sobre os judeus ou os socialistas é incorrer em erro tão grande quanto julgar que um romance de Zola é bom apenas por ter sido escrito por Zola. Afinal, o próprio Zola também se equivoca. É, ainda assim, o homem mais corajoso deste país. Por não temer seus erros, sabendo que são frutos, sempre, de seu pensar.

O pensar, meus senhores e senhoras, é representado, simples e somente, por esta faculdade de questionar e questionar-se. O não-pensar é exercido todas as vezes que uma convicção é repetida e repetida, sem cessar, em frases absurdas como “ainda que o réu seja inocente, é a unidade da nação que está em jogo”. A ideia da unidade da nação pode atropelar a inocência de um réu? Não, meus senhores, não pode.

No primeiro parágrafo deste manifesto, creio que deixei bem claro um equívoco cometido por mim. Além de tê-lo deixado claro, fiz uma correção ao meu erro, uma correção imediata, que visava a precisão. Iniciar uma ação por um erro pode ser considerado, por muitos, como tolice. Tolice maior ainda seria não iniciá-la, quando se supõe haver motivos para fazê-lo. Mas a grande estupidez, a grande idiotice (se me permitem o uso da palavra agressiva) seria, iniciada a ação, perceber nela um erro e não, imediata e energicamente, corrigi-lo, e tornar a correção pública. Principalmente se a referida ação disser respeito a outros. É neste espírito, senhores, que os exorto a corrigir seus erros, e a exigir de seus governantes, comandantes e generais que corrijam seus próprios erros. A glória não está em não errar; está, meus senhores e senhoras, em não-pensar.


Pensem, meus senhores e senhoras. Pensem incessantemente. E afastem de si o não-pensar!




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O texto acima é apenas um pequeno exercícios de imaginação, produzido em virtude de leituras recentes sobre a história da França.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Dudinca mata Dadinho



(minha parte no tríptico escrito em conjunto com o Guilherme de Faria Rodrigues e o Gabriel Medeiros.)

Ela entra na casa e bate a porta. A chave, tocada por seus dedos, rapidamente gira duas vezes em torno de seu próprio eixo. Suas costas se apóiam. Na madeira que a protege.

Um turbilhão de coisas passa por sua cabeça: como você chegou aqui – eu prefiro ele – somos uma irmandade, quase – o preço do tomate é um absurdo – o que é que você bebe – eu não costumo cozinhar para os outros – por que você acha  Milton Nascimento melhor que Chico? – quanto você sabe – o que é que você disse sobre o caso Dreyfus – quantos aqui neste prédio ouvem – bonsais – não quero me despedir de você – quando ele vem – tchau – o que você está fazendo aqui – eu prefiro ele – as suas unhas – as costas dele – quanto disso tudo; Ela fixa seu olhar no meio do copo, e a água, caindo do filtro, começa a preenchê-lo. Gira, imediatamente, o botão quando a água atinge o ponto no qual ela se refugiou. Toma, de um gole só, e repete a operação.

Repete a operação mais uma vez.

Começa a ouvir os passos dele, o irmão, cada vez mais altos. As pernas curtas dificultaram a subida pela escada. Ainda assim, conseguiu vencê-lo.

Ela sabe o que vai se seguir. Ele, o irmão, vai gritar e pedir que ela abra; vai chorar e pedir que ela explique. Mas não há nada a explicar.

Ela se dirige ao seu quarto, quando recebe uma mensagem em seu celular. A mensagem é do canalha, só pode estar atrasada, e diz: “Eu prefiro ele”. Alguns minutos atrás, o canalha gritava embaixo dela, depois em cima dela. Quase sem ar. Agora, “prefere ele”. Filho de uma

A foto (antiga) dos pais, ao lado do disco do Clube da Esquina onde escreveram “filhinha, não deixe que seu irmão ignore isso. Beijo, mamãe e papai”.

Papai e mamãe. Ela olha para os ventres dos dois, expostos.

A porta é socada. O irmão vai tentar entrar. Ela pega uma foto dos dois, ela com o irmão no colo. 15 anos de diferença. “Meu irmão poderia ter uma foto assim com esse filho de uma”, pensa. Suas costas ainda doem um pouco com os arranhões. Doem as costas do irmão também?

O som da porta arrombada a direciona. Rapidamente, a mão esquerda impulsiona metade da gaveta para a frente; a mão direita conduz o salto do canivete, que, com um estalido surdo, aterrissa na escrivaninha nova.

Ela abre o canivete. Fixa nele o seu olhar, como, segundos atrás, o fizera.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Listas I: Para Ler na Adolescência

Sim, voltamos pra idéia da lista. Por que raios, meu amigo? Porque bom, as listas são interessantes e ponto final. É, pois é, você não quer ficar tendo que justificar as coisas desse jeito até o fim da vida, ou quer?

Listas são uma construção artificial. São fruto de uma porrada de coisas: momento, temperamento, TPM, briga com a mãe, medo de perder o emprego, paixão (por uma mulher, por um homem ou por um autor), bronca do orientador, surtos com a nota de uma prova de língua. Por que raios então uma coisa tão arbitrária é útil? Simples, benzinho: em primeiro lugar, porque você, que faz uma lista, é forçado a pensar, a organizar, a selecionar. Debaixo de todas essas pressões. É, meu amigo, você faz listas: de prioridades, de pratos pro seu casamento, de compras de supermercado. É um ótimo exercício priorizar. E é um ótimo exercício rever as suas listas, corrigi-las, guardá-las com data. E pra quem lê, então, qual é a utilidade? Bom, isso é o que nós chamamos de pergunta aberta. Experimente uma ou duas listas (você não experimenta o doce que a mãe do seu amigo fez? Vale a pena perder um tempo com coisa nova de vez em quando). Experimente dez ou quinze se for o caso. Quase sempre há algo que sutilmente liga os elementos dela. E que os liga à sua vida.

Rapidamente sobre essa lista: não li todos esses livros durante a adolescência. São sete, porque sete é um número que me agrada. Um breve (brevíssimo) comentário sobre eles. São, também, os livros que eu gostaria de ter lido quando adolescente; que darei para minha sobrinha quando ela for adolescente; que indico para os adolescentes que me pedem recomendações eventuais. Ah, um último adendo: os comentários são extremamente redutores, ok meninos e meninas? Descubram o motivo real de ler esses livros por vocês mesmos.

1. A Náusea – Jean-Paul Sartre: O topo da lista tinha de ir pra um livro que eu realmente li durante a adolescência. Por que esse livro de maníaco depressivo? Porque é legal aprender a passar mal com livros na adolescência; e porque é legal entender que não é só você que tem crises de “pra que raios eu vou usar tudo o que aprendo na minha vida?”

2. Demian – Herman Hesse: cliché, cliché, cliché … Livro clássico sobre um adolescente que se descobre. E sim, meu amigo, talvez você precise se descobrir.

3. Risíveis Amores – Milan Kundera: Se você um dia pretende entrar em contato com outra visão sobre o amor que não a de “fogo que arde sem se ver”, dê uma ligadinha pro tio Kundera.

4. O Brinquedo Raivoso – Roberto Arlt: um livro sobre um adolescente delinqüente. Provavelmente, ocuparia o topo da lista se eu escrevesse esse artigo amanhã ou depois.

5. Estrela Distante – Roberto Bolaño: Acho que o comentário mais adequado é: um romance policial de tirar o fôlego! (você descobre a surpresinha ou eu estrago? Ele não é policial... do jeito... hm... que você imagina; o cara DEITA).

6. A Filosofia de Andy Warhol – Andy Warhol: Não querido, não é uma introdução à filosofia pra você. É só pra você dar umas risadas também. Quando fechar o livro, é legal se perguntar “de que raios eu estou rindo”? Quem sabe assim você entenda o que é, enfim, o humor. Se entender, poste aqui, ok? Estamos esperando. Ansiosamente.

7. Paranóia – Roberto Piva: Pelo menos um de poesia. Faz um esforcinho vai. Daí talvez seja a hora de repensar alguns xingamentos que você usa; algumas palavras de baixo calão; alguns temas desagradáveis sobre os quais as pessoas insistem em conversar. (Se tiver tempo, leia Rimbaud também, ok?)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

My Idea of Fun

*Notas preliminares:

1- Estamos de volta depois de um mês de “férias”, inteiramente dedicado à minha monografia de conclusão de curso. Correria!

2- Esse texto é dedicado à Isabelle Penha Ribeiro, amiga querida, cujo trabalho e dedicação tenho a honra de acompanhar de perto. Agradecimento especial a ela pelo convite para publicar o texto A Reinvenção de Orfeu na revista de cultura que a tem como uma das editoras, a Pop-Up. Não percam!

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Ele é magrelo, parece uma lombriga, é bem velho e faz você ter inveja da sua energia quando pula, canta e domina o palco. Por mais de uma hora e meia. E além de tudo ele é meio estranho. Iggy Pop é bem diferente dos Beatles, dos Rolling Stones, e também não é nada parecido com os ídolos Jimmy Hendrix e Janis Joplin. Enquanto eles aparecem em grupos de semelhantes, a figura de Iggy se destaca brutalmente dos demais Stooges. Sim, o cara é diferente, e a música dele é diferente também. Afinal, não se declara o amor, via de regra, cantando now I wanna be your dog; para conseguir achar isso maravilhoso (e acreditem meninos e meninas, é maravilhoso) é preciso se deixar levar por aquilo que Iggy pensa, fazer um pacto com ele ao longo das músicas. Ou seja: dar um peteleco na preguiça.

Tudo bem, mas você não tem que criar coragem de abrir uma música. Seu amigo põe no carro, ou calha de estar tocando no café da esquina. Eventualmente, uma homenagem à sua tenista predileta no Youtube a traz como trilha sonora... E depois, sempre temos o maravilhoso “O que você está ouvindo” no MSN, perfeito pros dias de tédio musical. Mas raramente alguém lê pra você um trecho de livro; nunca você vai cruzar com um à toa. Sim, podem falar algo, mas daí até chegarmos às letrinhas miúdas... Principalmente quando o livro nos dá a maldita preguiça. E no geral, isso está relacionado ao tamanho do dito cujo.

Sim, livros de oitocentas ou novecentas páginas... QUÊ? Sim, livros de duas mil páginas em oito volumes. Como, mas como raios se animar pra ler um livro que talvez leve o mês inteiro ou até um ano pra chegar ao fim? Olhamos a Montanha Mágica, de Thomas Mann, e num primeiro momento ela é muito mais montanha. Sim, é preciso persistir; livros como esse, no geral, dão muito pouco de si aos leitores no começo, vão se revelando aos poucos. Sim, enquanto seu amigo comentou dos últimos cinco escritores que leu, você diz com orgulho “cheguei até a metade!”. Escalar essas páginas requer uma vontade especial de ver o mundo do topo.

É só de lá, no entanto, que podemos ver um certo tipo de mágica. É que por serem tão cheiso de detalhes, se ocuparem tanto tempo de alguns personagens e nos manterem curiosos pelo mundo que nos oferecem, esses catataus de trocentas-e-lá-vai-pedrada páginas revelam algumas coisas que os livros pequenos não têm. O camarada até fica chato, fala sempre do mesmo assunto, conta a ação do livro como se fosse fofoca quentinha; perde a noção de que não são todos os que estão vivendo naquele lugar. Chega, inclusive, a marcar na agenda o horário da palestra do Dr. Krokowski, ou então passar raiva por não receber um convite para o sarau da Duquesa de Guermantes. Que nem quando começa a namorar; só que é mais difícil dizer que não se vai com a cara de uma namorada de oitocentas páginas.

O pacto é difícil, mas vale a pena. É preciso, vez ou outra, deixar de sair um diazinho; talvez, pensar em não ler a revista semanal, em sacrificar uma hora do dia durante um bom tempo. O livro está lá pra ser enfrentado, e não adianta querer calcular quão mais próximo se está do fim. Aos poucos, o tesão aumenta; você entende uma coisa, entende outra, as engrenagens se encaixam. Você é surpreendido, e a surpresa te deixa puto da vida. Você se programou pra ler trinta páginas no dia, e lê cinqüenta, sessenta. Um dia engata; lê cem. E era um sábado! Finalmente, você entende pra que raios servem os domingos, do mesmo modo como entendeu por que três acordes eram suficientes, ou o que tinha a ver o saxofone com o rock. Você cria uma nova idéia sobre diversão, e urra pedindo pro livro levá-lo para passear. Com a coleira e a guia entre os dentes.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Bode Pós-Livro

Conheci meu livro preferido, como se deve conhecer essas coisas, numa “conversa de bar”. Eu, uma conhecida (que eu mal conhecia) e uma amiga dela falávamos sobre livros. A amiga, digamos “Molly”, dizia que não conseguia terminar um livro. Nunca. Não interessava o quão bom ele fosse, ou quanto ele se relacionasse com a vida dela. Pelo que dizia, Molly lia. Muito. Só não conseguia chegar aos finais. E ela me dizia isso porque esse livro, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, era o primeiro livro “sério”, adulto, que ela terminava. Pensei “caramba, preciso ler isso”, igualmente influenciado pela minha sede de moleque de 17 anos que queria ler todos os romances bons do mundo e pela minha sede de moleque de 17 anos de impressionar a menina e poder, um dia, levá-la pra cama ou pro canto.

Óbvio que nunca mais conversamos. Óbvio. Mas comprei o livro no dia seguinte, e em dois dias eu engoli aquelas páginas. Precisei, imediatamente, recomeçar o livro, assim que tinha terminado. Dessa vez, com mais vagar, demorei uma semana. Não li virando as noites (como costumava) sem despregar os olhos das linhas, mas parando, me deitando, encostando a cabeça na parede, no travesseiro, no chão, onde desse. O processo de leitura tinha sido completamente diferente. Até que, no sétimo dia, quando terminei a única releitura que seguiu imediatamente a leitura na minha vida, bateu. O livro tinha acabado, e o meu convívio com aquelas personagens também. Eu poderia voltar a ele, poderia reler uma terceira vez ou me tornar monomaníaco e reler uma oitava, uma nona, uma vigésima vez. Mas tinha apreendido uma parte suficiente do livro. Ele tinha realizado um processo na minha cabeça, na minha alma, no meu corpo, e eu aproveitei esse processo e sofri com ele e me deliciei com o sofrimento. Só que o livro acabou, o processo acabou, e era preciso voltar pro mundo. Bateu.

Por que raios Molly (que vi esses dias num bar, alguns quilos mais gorda e falando um monte de merda) não terminava os livros? Não tinha parado pra pensar, embora não fosse a primeira vez que eu sentia um final. Nos filmes geralmente era fácil, todo o ritual: a luz acendendo, o “massa né?” do amigo ao lado, a inveja dos casais que perderam a última cena pra virar protagonistas de alguma outra coisa, a vontade de ir ao banheiro depois de mais de meio litro de coca-cola aguada... Em casa então, um dos cômodos claros (banheiro ou cozinha) resolvia o problema. É só comer um pedaço de queijo, ou tomar um coca, ou dar uma mijada e tudo fica certo. E quando se termina um livro? O mais sensato a fazer, talvez, seja ligar pro amigo que o recomendou (quando ele existe), mas pode ser tarde. Ele pode não se lembrar da cena que você quer comentar e tudo... O que é que se vai fazer no exato momento em que a última palavra aparece, e resta só fechar a capa?

Claro que os livros operam de formas diferentes nas pessoas. O fim, no entanto, é sempre uma experiência parecida, e por isso dá vontade de ir logo pra ele, acabara, começar o próximo livro ou não começar mais nada. Temos que nos despedir daqueles personagens, daquela atmosfera. E mais do que isso: quando a narrativa acaba, já não há mais diferença ou fronteira entre você e ela. Aquelas páginas fazem parte do leitor, e não é possível mais “viajar”, “se sentir em outro lugar” ou qualquer uma dessas baboseiras que os falsos amantes de literatura clamam fazer. Fim da linha, e agora é que vamos ver se o livro é bom. Porque os bons estão presentes, não onipresentes, mas à espreita numa esquina. Versos e pequenos fragmentos narrativos nos aguardam, depois do fim de uma leitura. Surgem inevitavelmente, e é esse o temor do final. O bode que se segue ao texto, e o silêncio que vem com ele. A certeza de que sim, Molly, agora que você acabou esse livro ele é seu. E não interessa quanta merda você fale no bar, nem quantos quilos engorde. Ele ainda lhe alcança. E quando bate, querida...