domingo, 20 de outubro de 2013
Reorganizações
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Trecho
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Manifesto imaginário diante de um caso não imaginário
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Dudinca mata Dadinho
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Listas I: Para Ler na Adolescência
Sim, voltamos pra idéia da lista. Por que raios, meu amigo? Porque bom, as listas são interessantes e ponto final. É, pois é, você não quer ficar tendo que justificar as coisas desse jeito até o fim da vida, ou quer?
Listas são uma construção artificial. São fruto de uma porrada de coisas: momento, temperamento, TPM, briga com a mãe, medo de perder o emprego, paixão (por uma mulher, por um homem ou por um autor), bronca do orientador, surtos com a nota de uma prova de língua. Por que raios então uma coisa tão arbitrária é útil? Simples, benzinho: em primeiro lugar, porque você, que faz uma lista, é forçado a pensar, a organizar, a selecionar. Debaixo de todas essas pressões. É, meu amigo, você faz listas: de prioridades, de pratos pro seu casamento, de compras de supermercado. É um ótimo exercício priorizar. E é um ótimo exercício rever as suas listas, corrigi-las, guardá-las com data. E pra quem lê, então, qual é a utilidade? Bom, isso é o que nós chamamos de pergunta aberta. Experimente uma ou duas listas (você não experimenta o doce que a mãe do seu amigo fez? Vale a pena perder um tempo com coisa nova de vez em quando). Experimente dez ou quinze se for o caso. Quase sempre há algo que sutilmente liga os elementos dela. E que os liga à sua vida.
Rapidamente sobre essa lista: não li todos esses livros durante a adolescência. São sete, porque sete é um número que me agrada. Um breve (brevíssimo) comentário sobre eles. São, também, os livros que eu gostaria de ter lido quando adolescente; que darei para minha sobrinha quando ela for adolescente; que indico para os adolescentes que me pedem recomendações eventuais. Ah, um último adendo: os comentários são extremamente redutores, ok meninos e meninas? Descubram o motivo real de ler esses livros por vocês mesmos.
1. A Náusea – Jean-Paul Sartre: O topo da lista tinha de ir pra um livro que eu realmente li durante a adolescência. Por que esse livro de maníaco depressivo? Porque é legal aprender a passar mal com livros na adolescência; e porque é legal entender que não é só você que tem crises de “pra que raios eu vou usar tudo o que aprendo na minha vida?”
2. Demian – Herman Hesse: cliché, cliché, cliché … Livro clássico sobre um adolescente que se descobre. E sim, meu amigo, talvez você precise se descobrir.
3. Risíveis Amores – Milan Kundera: Se você um dia pretende entrar em contato com outra visão sobre o amor que não a de “fogo que arde sem se ver”, dê uma ligadinha pro tio Kundera.
4. O Brinquedo Raivoso – Roberto Arlt: um livro sobre um adolescente delinqüente. Provavelmente, ocuparia o topo da lista se eu escrevesse esse artigo amanhã ou depois.
5. Estrela Distante – Roberto Bolaño: Acho que o comentário mais adequado é: um romance policial de tirar o fôlego! (você descobre a surpresinha ou eu estrago? Ele não é policial... do jeito... hm... que você imagina; o cara DEITA).
6. A Filosofia de Andy Warhol – Andy Warhol: Não querido, não é uma introdução à filosofia pra você. É só pra você dar umas risadas também. Quando fechar o livro, é legal se perguntar “de que raios eu estou rindo”? Quem sabe assim você entenda o que é, enfim, o humor. Se entender, poste aqui, ok? Estamos esperando. Ansiosamente.
7. Paranóia – Roberto Piva: Pelo menos um de poesia. Faz um esforcinho vai. Daí talvez seja a hora de repensar alguns xingamentos que você usa; algumas palavras de baixo calão; alguns temas desagradáveis sobre os quais as pessoas insistem em conversar. (Se tiver tempo, leia Rimbaud também, ok?)
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
My Idea of Fun
*Notas preliminares:
1- Estamos de volta depois de um mês de “férias”, inteiramente dedicado à minha monografia de conclusão de curso. Correria!
2- Esse texto é dedicado à Isabelle Penha Ribeiro, amiga querida, cujo trabalho e dedicação tenho a honra de acompanhar de perto. Agradecimento especial a ela pelo convite para publicar o texto A Reinvenção de Orfeu na revista de cultura que a tem como uma das editoras, a Pop-Up. Não percam!
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Ele é magrelo, parece uma lombriga, é bem velho e faz você ter inveja da sua energia quando pula, canta e domina o palco. Por mais de uma hora e meia. E além de tudo ele é meio estranho. Iggy Pop é bem diferente dos Beatles, dos Rolling Stones, e também não é nada parecido com os ídolos Jimmy Hendrix e Janis Joplin. Enquanto eles aparecem em grupos de semelhantes, a figura de Iggy se destaca brutalmente dos demais Stooges. Sim, o cara é diferente, e a música dele é diferente também. Afinal, não se declara o amor, via de regra, cantando now I wanna be your dog; para conseguir achar isso maravilhoso (e acreditem meninos e meninas, é maravilhoso) é preciso se deixar levar por aquilo que Iggy pensa, fazer um pacto com ele ao longo das músicas. Ou seja: dar um peteleco na preguiça.
Tudo bem, mas você não tem que criar coragem de abrir uma música. Seu amigo põe no carro, ou calha de estar tocando no café da esquina. Eventualmente, uma homenagem à sua tenista predileta no Youtube a traz como trilha sonora... E depois, sempre temos o maravilhoso “O que você está ouvindo” no MSN, perfeito pros dias de tédio musical. Mas raramente alguém lê pra você um trecho de livro; nunca você vai cruzar com um à toa. Sim, podem falar algo, mas daí até chegarmos às letrinhas miúdas... Principalmente quando o livro nos dá a maldita preguiça. E no geral, isso está relacionado ao tamanho do dito cujo.
Sim, livros de oitocentas ou novecentas páginas... QUÊ? Sim, livros de duas mil páginas em oito volumes. Como, mas como raios se animar pra ler um livro que talvez leve o mês inteiro ou até um ano pra chegar ao fim? Olhamos a Montanha Mágica, de Thomas Mann, e num primeiro momento ela é muito mais montanha. Sim, é preciso persistir; livros como esse, no geral, dão muito pouco de si aos leitores no começo, vão se revelando aos poucos. Sim, enquanto seu amigo comentou dos últimos cinco escritores que leu, você diz com orgulho “cheguei até a metade!”. Escalar essas páginas requer uma vontade especial de ver o mundo do topo.
É só de lá, no entanto, que podemos ver um certo tipo de mágica. É que por serem tão cheiso de detalhes, se ocuparem tanto tempo de alguns personagens e nos manterem curiosos pelo mundo que nos oferecem, esses catataus de trocentas-e-lá-vai-pedrada páginas revelam algumas coisas que os livros pequenos não têm. O camarada até fica chato, fala sempre do mesmo assunto, conta a ação do livro como se fosse fofoca quentinha; perde a noção de que não são todos os que estão vivendo naquele lugar. Chega, inclusive, a marcar na agenda o horário da palestra do Dr. Krokowski, ou então passar raiva por não receber um convite para o sarau da Duquesa de Guermantes. Que nem quando começa a namorar; só que é mais difícil dizer que não se vai com a cara de uma namorada de oitocentas páginas.
O pacto é difícil, mas vale a pena. É preciso, vez ou outra, deixar de sair um diazinho; talvez, pensar em não ler a revista semanal, em sacrificar uma hora do dia durante um bom tempo. O livro está lá pra ser enfrentado, e não adianta querer calcular quão mais próximo se está do fim. Aos poucos, o tesão aumenta; você entende uma coisa, entende outra, as engrenagens se encaixam. Você é surpreendido, e a surpresa te deixa puto da vida. Você se programou pra ler trinta páginas no dia, e lê cinqüenta, sessenta. Um dia engata; lê cem. E era um sábado! Finalmente, você entende pra que raios servem os domingos, do mesmo modo como entendeu por que três acordes eram suficientes, ou o que tinha a ver o saxofone com o rock. Você cria uma nova idéia sobre diversão, e urra pedindo pro livro levá-lo para passear. Com a coleira e a guia entre os dentes.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O Bode Pós-Livro
Conheci meu livro preferido, como se deve conhecer essas coisas, numa “conversa de bar”. Eu, uma conhecida (que eu mal conhecia) e uma amiga dela falávamos sobre livros. A amiga, digamos “Molly”, dizia que não conseguia terminar um livro. Nunca. Não interessava o quão bom ele fosse, ou quanto ele se relacionasse com a vida dela. Pelo que dizia, Molly lia. Muito. Só não conseguia chegar aos finais. E ela me dizia isso porque esse livro, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, era o primeiro livro “sério”, adulto, que ela terminava. Pensei “caramba, preciso ler isso”, igualmente influenciado pela minha sede de moleque de 17 anos que queria ler todos os romances bons do mundo e pela minha sede de moleque de 17 anos de impressionar a menina e poder, um dia, levá-la pra cama ou pro canto.
Óbvio que nunca mais conversamos. Óbvio. Mas comprei o livro no dia seguinte, e em dois dias eu engoli aquelas páginas. Precisei, imediatamente, recomeçar o livro, assim que tinha terminado. Dessa vez, com mais vagar, demorei uma semana. Não li virando as noites (como costumava) sem despregar os olhos das linhas, mas parando, me deitando, encostando a cabeça na parede, no travesseiro, no chão, onde desse. O processo de leitura tinha sido completamente diferente. Até que, no sétimo dia, quando terminei a única releitura que seguiu imediatamente a leitura na minha vida, bateu. O livro tinha acabado, e o meu convívio com aquelas personagens também. Eu poderia voltar a ele, poderia reler uma terceira vez ou me tornar monomaníaco e reler uma oitava, uma nona, uma vigésima vez. Mas tinha apreendido uma parte suficiente do livro. Ele tinha realizado um processo na minha cabeça, na minha alma, no meu corpo, e eu aproveitei esse processo e sofri com ele e me deliciei com o sofrimento. Só que o livro acabou, o processo acabou, e era preciso voltar pro mundo. Bateu.
Por que raios Molly (que vi esses dias num bar, alguns quilos mais gorda e falando um monte de merda) não terminava os livros? Não tinha parado pra pensar, embora não fosse a primeira vez que eu sentia um final. Nos filmes geralmente era fácil, todo o ritual: a luz acendendo, o “massa né?” do amigo ao lado, a inveja dos casais que perderam a última cena pra virar protagonistas de alguma outra coisa, a vontade de ir ao banheiro depois de mais de meio litro de coca-cola aguada... Em casa então, um dos cômodos claros (banheiro ou cozinha) resolvia o problema. É só comer um pedaço de queijo, ou tomar um coca, ou dar uma mijada e tudo fica certo. E quando se termina um livro? O mais sensato a fazer, talvez, seja ligar pro amigo que o recomendou (quando ele existe), mas pode ser tarde. Ele pode não se lembrar da cena que você quer comentar e tudo... O que é que se vai fazer no exato momento em que a última palavra aparece, e resta só fechar a capa?
Claro que os livros operam de formas diferentes nas pessoas. O fim, no entanto, é sempre uma experiência parecida, e por isso dá vontade de ir logo pra ele, acabara, começar o próximo livro ou não começar mais nada. Temos que nos despedir daqueles personagens, daquela atmosfera. E mais do que isso: quando a narrativa acaba, já não há mais diferença ou fronteira entre você e ela. Aquelas páginas fazem parte do leitor, e não é possível mais “viajar”, “se sentir em outro lugar” ou qualquer uma dessas baboseiras que os falsos amantes de literatura clamam fazer. Fim da linha, e agora é que vamos ver se o livro é bom. Porque os bons estão presentes, não onipresentes, mas à espreita numa esquina. Versos e pequenos fragmentos narrativos nos aguardam, depois do fim de uma leitura. Surgem inevitavelmente, e é esse o temor do final. O bode que se segue ao texto, e o silêncio que vem com ele. A certeza de que sim, Molly, agora que você acabou esse livro ele é seu. E não interessa quanta merda você fale no bar, nem quantos quilos engorde. Ele ainda lhe alcança. E quando bate, querida...